XI & TRUMP DE MÃOS DADAS PARA O ABISMO

ENTRE A CRUZ E A CALDEIRINHA

Crises em que as duas partes se acusam mutuamente de forma radical e com ameaças de aniquilamento total, levam-me a crer que ambas têm razão. É o caso da guerra em múltiplos tabuleiros entre os Estados Unidos e a China. Estou convencido de que estamos nas escaramuças prévias de um conflito entre potências pela supremacia hegemônica global, que é exatamente o que tanto Donald Trump como Xi Jinping acusam um ao outro.

Também creio que Xi está coberto de razões quando retrata os EUA como uma potência inconfiável, que não respeita acordos, trata seus aliados como se fossem protetorados, e tenta submetê-los a acordos unilateralmente onerosos – não é outra coisa o que diz o próprio Trump. Também tem razão o chefe da diplomacia americana, Mike Pompeo – refletindo, mutatis mutandis, as crenças de republicanos e democratas, e da elite pensante americana quando qualifica a China como uma “nova tirania”. Suas declarações recentes:

“Today -China is increasingly authoritarian at home, and more aggressive in its hostility to freedom everywhere else.” …“If the free world doesn’t change Communist China, Communist China will change us,”

são basicamente corretas, com apenas duas ressalvas: se o que ele chama de “mundo livre” – essa metáfora da guerra fria – refere-se às democracias liberais, elas já estão sendo mudadas, há décadas, pelas políticas comercial, de investimentos e cultural chinesas; ademais, se observarmos a trajetória autocrática de Trump, os EUA já estão mudando o que Pompeo chama de “mundo livre”, corroendo o caráter liberal representativo de seus supostos aliados.

O que interessa a nós brasileiros é que estamos diante de um conflito de caráter global que não se resolverá a curto e médio prazo, e cuja probabilidade de resolução pacífica está em risco constante. A visão prevalecente sobre o futuro das relações entre EUA e China, e que compartilhei até recentemente, estava equivocada. A ascensão da China não está sendo a de uma liberalização constante, tanto econômica quanto social e política, sobre pressão crescente da sociedade civil. A chegada de Xi Jinping ao poder, sobretudo após sua reeleição, vem criando um regime de caráter autocrático, policialesco, retomando o totalitarismo que precedeu a verdadeira revolução política de Deng Xiaoping, e adotando uma geopolítica expansionista.

Sugiro a leitura do seguinte artigo:

https://www.foreignaffairs.com/articles/china/2020-07-15/china-done-biding-its-time.

As fraquezas da estratégia autocrática, porém, têm profundas raízes internas que também são visíveis e muito bem expostas no artigo seguinte:

https://www.foreignaffairs.com/articles/united-states/2020-04-03/chinas-coming-upheaval.

O agravante é que as expectativas de que a trajetória autocrática de Donald Trump seria um desvio de rota, e que as instituições americanas eram suficientemente sólidas para contê-lo, eram totalmente equivocadas. O julgamento do Senado americano, no processo de impeachment de Trump, estabeleceu que caberia ao Presidente tomar decisões, independentemente de qualquer óbice legal, desde que para o bem maior do País e, como  sua reeleição seria o melhor para o País, ele estava livre para fazer o que quer que fosse necessário para se reeleger.

É verdade que as pesquisas sobre expectativas de voto nas próximas eleições mostram um esvaziamento persistente do apoio a Trump, inclusive nas regiões e nas faixas do eleitorado que lhe garantiram a vitória em 2016. Contudo, tanto sua política anti-China quanto parte de seu protecionismo comercial ganham, cada vez mais, o apoio bipartidário. Isto sugere que Joe Biden, se eleito, dificilmente adotará uma reversão significativa da atitude hostil dos EUA contra a China.

Nesse contexto, a Política Externa brasileira passará a ser o campo de decisões mais vital para a sobrevivência do Brasil como Nação livre e independente. Só que nem governo nem o restante da elite política parecem estar preparados para isso.

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