VENEZUELA E EUA DE MÃOS DADAS PARA O ABISMO

HÁ MAIS COISAS ENTRE A VENEZUELA E OS EUA DO QUE SUSPEITA NOSSA VÃ FILOSOFIA

Este comentário vai para Elizabeth Balbachevsky, que me deu a deixa, e para Carlos Romero, o cientista político venezuelano, que me ensinou o pouco que sei sobre seu País.

Há muito em comum entre a crise de legitimidade na Venezuela e a crise do sistema representativo nos EUA – sem falar da encruzilhada brasileira. A Venezuela era a democracia mais estável da América do Sul. Sua estabilidade se baseou em um pacto entre os partidos dominantes da elite dirigente, que se sucediam no poder sem alterar os fundamentos da distribuição da riqueza e da hierarquia social.

Quando a receita do petróleo se tornou insuficiente para garantir os subsídios que custeavam o bem estar da população e as crescentes demandas de acesso ao trabalho, à moradia e à alimentação, a legitimidade do pacto partidário começou a ruir. A pressão por mudanças cresceu, mesmo em setores insatisfeitos da própria elite política, até resultar em uma reforma do sistema eleitoral com o objetivo de destruir os partidos dominantes e substitui-los por um sistema partidário mais plural e ideologicamente fragmentado.

Os efeitos foram rápidos e drásticos, levando à fragmentação dos partidos majoritários (social democrata e democrata cristão), e criando uma miríade de grupelhos partidários, com pequena mas aguerrida inclinação à esquerda. A crise econômica veio rápido e o que restou da antiga classe dirigente foi varrida do poder por meio de manifestações populares, seguidas do golpe militar mal sucedido do então coronel Chávez. Embora derrotado, este se manteve ativo na política e conquistou o poder nas urnas, graças à fragmentação do sistema partidário.

À medida que o regime populista bolivariano foi-se fortalecendo, as forças políticas tradicionais, de centro esquerda e centro direita, solaparam ainda  mais sua legitimidade graças a sua crescente incapacidade para representar interesses e expectativas da maioria. Sua fragmentação, e sua incapacidade para fazer mútuas concessões e definir e adotar uma estratégia política comum de poder, deixaram o campo livre para o populismo se enraizar e seguir sua própria trajetória para o fracasso.

Hoje, a sobrevida de uma oposição enfraquecida e muito dividida parece ser a última razão da sobrevivência de Maduro, apesar do descalabro de seu desgoverno. E vice-versa, tudo se passa como se a resistência a Maduro fosse a única fonte de legitimidade de um Guaidó que não se notabiliza por uma estratégia clara nem por um programa viável.

*

E a crise americana? Passando por cima de uma análise mais detalhada da história política dos EUA – que mostraria, no pós-II Guerra, uma corrosão do papel dos partidos, um alto número de governos divididos (em que pelo menos uma das casas nega maioria ao Presidente), com seis dos doze presidentes confinados a um só mandato, e dois presidentes submetidos a julgamento político em vinte anos – pode-se perguntar se o sistema político americano não estará trilhando um caminho similar ao da Venezuela.

Os dois partidos dominantes – cuja rotação no poder se deve a uma combinação do sistema majoritário com um colégio eleitoral que, na prática, inviabiliza um terceiro candidato competitivo – já não são aceitos como um canal legítimo e confiável de representação dos interesses e expectativas populares. Um, porque se deixou dominar por um populismo de direita que rejeita qualquer atitude de moderação ou disposição para negociar, e o outro, porque se fragmentou em tribos inconciliáveis, com minoritária, mas relevante inclinação à esquerda. Além disso, o colégio eleitoral permitiu, em menos de vinte anos, a eleição de dois presidentes derrotados nas urnas (Bush em 2000 e Trump em 2016), o que põe em cheque a legitimidade do mandato presidencial.

A esquerda democrata não tem condições para derrotar o adversário mas, como já ocorreu com Hillary Clinton, tem tudo para inviabilizar qualquer candidato não “socialista” como se intitula o senador Sanders. Os populistas e os cristãos republicanos também não teriam votos para derrotar um candidato democrata moderado, ou mesmo um pouco mais “à esquerda” como Obama, mas jamais votariam em republicanos mais moderados, que eles consideram traidores dos interesses populares.

O que temos à frente é, portanto, uma alta probabilidade de permanência do populismo de direita nos EUA, graças à fragmentação dos setores moderados em ambos os partidos que, no entanto, representam a maioria. Mutatis mutandis, a receita do populismo, de direita ou de esquerda, para se enraizar no poder, é a mesma, na Venezuela, nos EUA ou no Brasil: destruir as instituições e aniquilar o centro.

O bom de tudo isso é que o populismo, de esquerda ou de direita, tende a construir sua própria rota para o colapso. Só não se sabe em quantas décadas…

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *