UM PASSO EM FRENTE, DOIS ATRÁS?

OU UM PASSO EM FRENTE E VÁRIOS EM TODAS AS DIREÇÕES?

Em meu último comentário, defendi a hipótese de que nosso atual presidente não havia apenas deflagrado a mais grave e arriscada crise, desde o fim do regime militar, mas endossara a convocação de um golpe de estado, envolvendo as massas, com apoio das forças armadas. Minha hipótese era de que o presidente já tinha recuado diante das reações contrárias, e que não era desprezível a probabilidade de que encontrasse algum subterfúgio para desmobilizar a manifestação que abriria as comportas para o golpe.

De lá para cá, o presidente deu, e continua dando, vários passos atrás: renegou seu endosso ao golpe, agora transformado em singela troca de opiniões pessoais. Retrocedeu, em seguida, para o endosso a uma manifestação em sua defesa. E, mais recentemente, alegou que a manifestação consistiria em exercer o direito constitucional da “população” a expressar sua vontade – no caso, a de preservar a discricionariedade do executivo na execução de uma dúzia de bilhões de reais do orçamento federal. Que eu saiba, ninguém pediu até agora a opinião da “população”.

As ações do presidente parecem sugerir um recuo tático, ou seja, preservar suas forças, corrigir seus erros, e planejar os próximos passos, sem abandonar o objetivo final de conquistar o poder absoluto. Por enquanto, recuaria diante de uma derrota provável ou de uma vitória a um custo demasiado alto. Ou seja, dar um passo atrás para poder dar dois em frente. É isso o que Lênin reivindicou como estratégia para sua facção – os bolcheviques -, enquanto condenava o esquerdismo dos mencheviques, cujas políticas redundariam, segundo ele, em “Um passo em frente, dois atrás”.

Entretanto, os passos atrás do presidente não são parte de um recuo tático organizado, mas de uma debandada em todas as direções: endossos públicos às manifestações, seguidos de ofertas de cancela-las, caso o Congresso ceda à pressão, na mesma frase admitir que não pode cancela-las, e no mesmo discurso negar que esteja ou tenha negociado; críticas à incapacidade do País (“isso é o Brasil”) para resolver qualquer problema por mais simples; ataques fora do contexto à lisura das últimas eleições, deixando implícito que o processo eleitoral não é uma forma confiável nem legítima de ascensão ao poder; insinuações sobre interesses econômicos não especificados que estariam alastrando pânico sobre uma epidemia inexistente.

Em suma, tudo converge para que, com ou sem manifestação, a ameaça de golpe não tenha dado certo, principalmente devido à inépcia de seus organizadores. Tudo dependerá, agora, do imponderável que resulta de pôr nas ruas um massa enraivecida e radicalizada sem capacidade efetiva de lidera-la e contê-la dentro dos limites da ordem.

Se a agenda golpista – fechar o Supremo, o Congresso, os partidos, e anular a Constituição – voltará ou não, ainda neste mandato presidencial, é impossível prever por enquanto.

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