TRUMP CONTRA DEUS E O MUNDO

CONSIDERAÇÕES SOBRE A ELEIÇÃO DO FIM DO  MUNDO

Como Trump se comporta diante das eleições: contra. Não se trata de uma conduta contrária a um sistema eleitoral fraudulento o que implicaria não somente denunciar, mas atuar para impedir ou mitigar a fraude. Desde a campanha de  2016 Trump não cessou de atuar contra o voto, para desencorajar os eleitores, não para atrair seus apoiadores. Essa conduta pode ter dois efeitos, o primeiro de impedir os que não sabem votar de exercerem esse direito (que  em sua opinião não merecem ter). O segundo, de induzir seus fiéis seguidores a dispensarem a intermediação do voto, consolidando sua relação com o líder sem mediação.

Trump não se opôs à apuração dos votos por impulso, opôs-se à continuação da apuração a partir do momento em que tomou a dianteira nas zonas eleitorais mais disputadas e nas quais as previsões indicavam alta probabilidade de sua derrota.

Um pouco em toda parte, tenho ouvido e lido que, qualquer que seja o desfecho das eleições americanas, se não o mundo, os EUA não serão mais o mesmo. Com o devido crédito a Elizabeth Balbachevsky, que  me deu essa dica, a conduta de Trump no poder provocou rupturas no sistema político americano como as produzidas pelas falhas tectônicas, retratadas na penúltima capa da Foreign Affairs, sob o título “O Mundo criado por Trump”.

Robert Dahl, pai fundador da teoria moderna da democracia, distinguia duas dimensões fundamentais do que ele chamou Poliarquia (a democracia possível): inclusão-exclusão e liberdade de competição. A democracia americana sempre conviveu com algum grau de exclusão dos direitos de cidadania, mas sempre garantiu a livre competição pelo poder entre as elites – especialmente as elites brancas, mas não esqueçamos as barreiras que irlandeses, italianos e judeus tiveram que enfrentar naquele país. Pois é essa duplicidade, covenientemente explorada por Trump que ameaça a democracia americana tal como a conhecemos.

Essa duplicidade não poderia existir sem se apoiar em alguma regra que, no caso, podemos chamar de um gentlemen’s agreement entre as elites políticas. Estas disputam o poder livremente, protegidas da competição de terceiras partes que, para disputar o poder, não terão chance se não competirem dentro de um dos partidos criados pelo establishment. Por sua vez, os interesses locais e regionais ficam livres para excluir quaisquer elementos perturbadores por motivos de cor, “raça”, religião, mesmo após décadas de legislação federal sobre os direitos civis e políticos.

Trump atuou para demolir o âmago da democracia americana por cima e por baixo. Incentivou os poderes locais a adotar todo tipo de obstáculo ao exercício do voto. A pretexto de privatizar o sistema postal mudou sua direção com instruções claras de dificultar o voto pelo correio. Conseguiu, apesar da tépida reação do Congresso. Ameaçou de violência os eleitores prováveis da oposição. Mobilizou ou, pelo menos, apoiou grupos armados para “fiscalizar” a lisura do pleito. E avisou, com mais de quatro anos de antecedência que não aceita o voto popular como critério para designar quem exerce o poder. É o que está ameaçando agora, exigindo que a apuração seja cancelada para favorecê-lo.

Se vai conseguir ou não, sequer pode ser resolvido nesse tipo de arranjo tácito, pois não tem lugar na legislação, nem pode designar uma autoridade que diga que a eleição terminou, proclame quem ganhou e marque uma data para dizer: a partir de agora, Você manda. Assim sendo, o futuro da democracia nos Estados Unidos está nas mãos de Deus… ou do diabo.

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