TERRA DE NINGUÉM

E NÃO É A VENEZUELA

Quem poderia imaginar que a América de Trump destruiria as bases de legitimidade do sistema político dos EUA, ou seja, o fundamento eleitoral da autoridade e o poder da Lei. Pois é o que Trump deliberadamente vem tentando, ao seguir a cartilha bolivariana de Chávez de cooptar, comprar ou submeter pela força as instituições. Foi o que tentei demonstrar em blog de janeiro de 2020, cuja hipótese conclusiva era de que o Senado lhe tinha dado um salvo conduto para descumprir abertamente a Lei. Fez isso quando admitiu que os crimes de alta traição que teria cometido, de acordo com a conclusão do processo de impeachment, não contavam, uma vez que caberia a ele, e não à maioria do eleitorado, decidir o que seria melhor para o País, isto é, sua reeleição.

Com base nessa hipótese conclusiva, propus também uma educated guess, de que, caso Trump não fosse barrado, sua reeleição tornaria possível a consolidação de um estado autoritário, com a perpetuação de seu mandato populista. Este seria o ponto de não retorno similar aos casos da Venezuela, da Bolívia e do Equador, para dar alguns exemplos.

Enquanto escrevo esta linha, divido minha atenção com a mídia internacional, para assistir ao que as redações americanas estão chamando de insurreição, e um senador republicano acaba de comparar com os recentes acontecimentos na Bielorrússia.

Trump não precisou de um segundo mandato para confirmar o título que já tinha sido escolhido para este blog, isto é, tornar seu País em terra sem lei. A opinião pública americana estava discutindo ultimamente se o presente ataque trumpiano à democracia era apenas um golpe de vigarista, para melhor tirar proveito mais tarde, no que quer que tivesse em mente, ou um verdadeiro golpe de Estado. Até agora a discussão parecia apenas uma questão retórica. Afinal, ambos os partidos e todos os comentaristas concordavam em que os recursos republicanos esperados contra a sacramentação do resultado das urnas era, no mínimo, para marcar posição e, no máximo, para solapar a legitimidade de Joe Biden. Mas neste 5 de janeiro, o cenário partidário americano abriu um precedente para tornar o respeito à lei uma questão de predileção e não de dever.

Um candidato democrata na Pensilvânia foi eleito no último pleito e teve sua eleição contestada pelo opositor republicano, o qual perdeu o recurso junto ao governo do Estado. Um recurso à Suprema Corte do Estado também confirmou a eleição do democrata que teve, entretanto, sua posse negada pela maioria republicana do Senado Estadual. Que não se limitou a isso: o vice-Governador, um democrata, que tem a prerrogativa de presidir o Senado Estadual, foi destituído pela maioria do plenário e constrangido a retirar-se.

O inverso da igualdade de todos perante a Lei, é o ditado romano “Quod licet Jovi non licet bovi” (o que é permitido a Júpiter não é permitido a um boi). O que uma “manada” ressentida, empobrecida e enganada com uma vitória ilusória e, por cima, armado até os dentes, poderá ter como incentivo para aceitar apenas as leis que lhe convêm! O assalto ao Congresso mostra o que há para vir no berço da república moderna.

E nos convida a enfrentar seriamente os tremendos obstáculos contra nossas prioridades evidentes – a retomada do crescimento e sua condição necessária: a vacinação em massa.

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