RISCO REAL E IMEDIATO

E OS PARTIDOS, TUDO? NADA!

Causou surpresa o surgimento de grupos desorganizados, improvisados e aparentemente espontâneos, que protestaram, entre outras coisas, contra a ameaça de golpe de Estado. O que surpreende é que ninguém se tenha organizado para protestar, quando a imensa maioria não apenas não votou em Bolsonaro, mas também não considera seu governo bom, nem muito menos ótimo; não aprova sua oposição ao combate da pandemia; não apoia sua promessa de armar toda a população; não apoia seus ataques à democracia, nem suas ameaças de comandar um golpe militar; não aprova seu envolvimento com políticos e partidos que há anos ele mesmo vem acusando de corruptos.

Por menos do que isso, milhões de brasileiros, de toda as partes do País, ocuparam as ruas por quatro anos, protestando contra a degradação de suas condições de vida, contra o descaso das autoridades diante de seus problemas básicos de saúde, educação e segurança, tudo isso agravado por um fabuloso desvio de dinheiro público. Como não protestar se Bolsonaro não cumpriu suas promessas de concertar, por um golpe de mágica, todos os erros, e trazer riqueza e bem estar para a maioria?

Creio que podemos considerar duas explicações para essa aparente apatia. A primeira é obviamente o temor da contaminação, sobretudo com o provável aumento da disseminação da covid-19, devido ao prematuro relaxamento do isolamento social.

A segunda é a omissão dos partidos políticos. Os partidos são o órgão da sociedade civil que tem a missão constitucional da formação política, da orientação e da mobilização de sua base de representação, e para isso são pagos regiamente com dinheiro público. Pois bem, em que momento desta quadra trágica da vida nacional – em que enfrentamos uma quebra da economia, com destruição de riquezas e de emprego, com a vida de cada um submetida a um grau de incerteza nunca visto – em que momento ouvimos nossos partidos políticos, isoladamente ou em conjunto, virem a públicos prestar contas: apresentar um diagnóstico mínimo da situação sanitária, econômica e política; propor uma linha de ação e mobilizar o apoio popular para suas metas?

Até o Papa rompeu com o protocolo monárquico do papado, e deixou de tão somente lamentar os males do mundo, para arregaçar as mangas, propor e efetuar mudanças necessárias. Ao contrário, desde que o presidente da República profanou seu mandato para endossar ameaças à ordem constitucional e tentar envolver as Forças Armadas em aventuras sangrentas, os partidos se calam, nem sequer ousam mais do que lamentar as inconveniências do presidente, de sua prole e de seus ministros prediletos. Como os partidos, também se cala parte relevante da classe política.

A aposta de alguns é que farão o governo sangrar – dada sua inesgotável incompetência, e a deplorável inexperiência de seus principais operadores políticos – até as eleições de 2022, para então começar tudo de novo, como fizeram com Dilma e Temer. Com o resultado de todos conhecido.

O novo fator, inerente a iniciativas improvisadas de protesto contra o governo, ou de natureza identitária, como parece ter sido o caso, representa um risco de enormes proporções, e Bolsonaro já entendeu isso, ao oferecer o Domingo para os protestos dos seus inimigos designados. O risco de conflito provocado por bolsonaristas organizados, e provavelmente armados, ou por radicais de esquerda, é real. A esta altura do campeonato, criticar os golpistas já não basta, é um diálogo de surdos.

Precisamos chamar à ação nossos partidos, que nos devem um mínimo de responsabilidade e respeito.