QUO VADIS BOLSONARE

RUMO AO COLAPSO

A trajetória de Bolsonaro a partir de sua candidatura à presidência – ou a partir do momento em que ela se tornou competitiva – parece-me bastante simples: ela é direcionada para assumir o poder absoluto. Isto é, não busca salvar as almas, revolucionar a cultura, realizar uma agenda política ou econômica, ou ainda menos militar, nem mesmo melhorar as condições de vida ou ampliar os privilégios dos grupos de interesse e corporações que lhe são fiéis.

Quem tenta realizar uma agenda age para viabilizá-la, reúne as forças que a favorecem, busca evitar os adversários, segue as trilhas mais compatíveis com a realização da agenda e contorna os obstáculos.

Bolsonaro, desde que eleito, em vez de agir, mandou implementar itens heterogêneos e muitas vezes contraditórios da agenda de seus seguidores. Quando não mandou desfigurar os projetos de lei e decretos que ele mesmo mandara preparar, foi cuidar de procurar inimigos, de cria-los se necessário, e ataca-los – frequentemente contribuindo para inviabilizar o que antes tinha mandado fazer.

No momento, não é relevante a discussão sobre saber se Bolsonaro aprendeu a reconhecer a realidade e a aceitar um mínimo de concessão frente à imensa pressão contrária da opinião pública, das instituições da República e da opinião internacional. Ele vai continuar se conduzindo como vem se conduzindo desde o início: manda, se não dá resultado ou se não gosta do resultado, ataca o obstáculo, seja ele pessoal, constitucional, financeiro, político ou de saúde pública.

Minha hipótese é de que a pandemia simboliza seu fracasso em assumir o poder de mandar em tudo e em todos, por ter inviabilizado a espécie de putsch que planejara para 15 de março. De fato, após mostrar-se alheio à tramitação e aprovação da Lei Nº 13.979, de 6 de Fevereiro de 2020 que estendera de maneira inédita seus poderes para enfrentar a calamidade pública, Bolsonaro começou a atacar a doença (gripezinha) e a política adotada pelo governo. O auge dessa conduta (como sempre alternando avanços e recuos) fora sua participação no protesto.

A gravidade da doença e sua capacidade para monopolizar toda a vida social e política do País são uma bofetada permanente em seu narcisismo maligno, porque apequenam sua autoimagem e se contrapõem a seu imaginário poder de mando e desmando. Já que não pode mandar em tudo e em todos, ele desafia a doença, desobedece às instituições, conduzindo-se como presidente com plenos poderes. Durante todo este mês de abril, vem ameaçando decretar o fim do isolamento, recorre ao Supremo sabendo que vai perder – mera medida de consolação – e, pela enésima vez, promete demitir o ministro da Saúde.

Enquanto escrevo estas mal traçadas (15/04 às 19h), a equipe do ministério começa a se desfazer e a preparar a transição para nova chefia, enquanto o presidente alterna evasivas e ameaças de demissão. Apesar de toda a balbúrdia desde o último fim-de-semana, a probabilidade de haver um desfecho ainda hoje me parece ser em torno de, mas menor do que 50%.

A demissão de Mandetta, a esta altura dos acontecimentos, é irrelevante, e terá decorrido muito mais da escolha do próprio ministro do que do poder de decisão do presidente. Isto porque o desgaste provocado pela conduta presidencial, embora não fosse suficiente para resultar em reversão total da política atual do governo, bastou para uma semiparalisia de sua implementação, sobretudo dada a insegurança administrativa e jurídica decorrente desse desgaste.

Assim sendo, minha hipótese é de que, quem quer que esteja tomando decisões cruciais no Planalto – e não é Bolsonaro isoladamente -, irá opor-se à admissão de algum leigo inexperiente, oportunista e obscurantista. Mas não se iluda quem pensar que haverá um desfecho.

O mal já foi feito, e o combate à pandemia, mesmo não voltando à estaca zero, terá que reconstruir sua credibilidade enquanto recupera o tempo perdido. Ademais, as mesmas causas produzindo os mesmos efeitos, enquanto Bolsonaro permanecer na Presidência, o pecado original da política de cautela contra a disseminação do coravid-19 continuará a atrair sua ira, orientando sua conduta. Se não caírem as políticas, outras cabeças continuarão caindo.

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