PROTAGONISMO OU RETRANCA: AINDA O DILEMA DO CENTRÃO

DUAS OU TRÊS COISAS SOBRE POLÍTICA BRASILEIRA

Em blog recente, concluí que os próximos lances do centrão seriam: ou afirmar-se como coalizão de poder, com uma agenda programática proativa, ou permanecer como coalizão de veto, com agenda reativa e defensiva. No primeiro caso, as lideranças reunidas no centrão, e suas ramificações de parlamentares comuns, imporiam uma derrota completa ao governo na questão da previdência e adotariam, em troca, além de uma reforma alternativa, uma agenda legislativa própria. Neste caso, contando com o desgaste do governo, o centrão poderia afirmar-se como uma coalização alternativa de poder para disputar a presidência em 2022 ou em face de acidente de percurso.

No segundo o caso, o centrão e sua periferia se limitariam a aprovar algum tipo de substitutivo com cortes suficientes para “desidratar” severamente as metas contidas na proposta do Executivo. De fato, o substitutivo do PL e a primeira versão da proposta do relator se enquadravam nesta opção. Não foi o que ocorreu quando da aprovação da proposta na Comissão Especial.

Para minha surpresa, o texto básico aprovado limitou-se a podar alguns dos dispositivos mais controversos do projeto e a diminuir seus efeitos em termos de tempo de contribuição e de idade, mas praticamente todos os destaques que buscavam inviabilizar a reforma foram rejeitados. Poder-se-ia dizer que o Centrão, com isso, abria mão de sua condição de coalizão de veto, ferindo levemente o governo, mas sem leva-lo ao colapso.

Minha hipótese estava errada ou errei nas contas? Passada a surpresa, dei-me conta de que o que estava errado era o teste. Ora, se o teste do pudim é comê-lo, é preciso esperar que o pudim fique pronto, e o veredito da reforma da previdência ainda nem entrou no forno. Meu erro foi cair na esparrela de que a promessa do presidente da Câmara já estava entregue, como se induziu o público a crer.

Só há uma palavra para descrever como, e por quê, o relatório da Comissão Especial foi aprovado, com o rechaço de quase todos os destaques, e praticamente sem obstrução, com a oposição/resistência totalmente derrotada mas, ainda assim, docemente constrangida a cooperar para o bom andamento dos trabalhos: conchavo. Todos saíram ganhando.

Rodrigo Maia mostrou sua competência onde o Executivo falhou; a oposição cumpriu seu compromisso de tentar impedir a reforma; os grupos de interesse terão mais chances e maior impessoalidade para reapresentar os destaques passados presentes e futuros; e o governo salvou, por enquanto, a face. As porteiras permanecem abertas.

O Presidente já se comprometeu a empenhar-se para manter os privilégios de sua base eleitoral e nada permite prever que vá mudar de rumo, ou conter-se diante de novas chantagens. Por que diabo as corporações mais atingidas, para cujas lamentações há ouvidos em toda a República, iriam colocar a sanidade da gestão pública acima de seus interesses? Quem viver verá.

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