POLARIZAÇÃO: A QUEM INTERESSA?

OS EXTREMOS ESTÃO RADICALIZANDO, MAS A MAIORIA É MODERADA

O pressuposto de que a sociedade brasileira se encontra polarizada é dado como fato inquestionável por todas as redações, e por um grande número de publicistas profissionais ou amadores. Até cientistas políticos amplamente reconhecidos, além de lideranças nacionais com enorme influência, partem do princípio de que a sociedade está polarizada, e afirmam que o relaxamento da prisão de Lula irá exponenciar essa polarização. Isso, sem falar nos principais protagonistas nessa polarização – o lulismo e o bolsonarismo.

Entretanto, esse consenso apoia-se exclusivamente em sua repetição ad nauseam. É a conhecida petição de princípio: parte-se do princípio de que a sociedade está polarizada para concluir que… isso ou aquilo se explica pela polarização.

Não obstante, os números permitem mostrar que, no primeiro turno, quando as preferências ainda não estão limitadas pela polarização forçada do segundo turno, Bolsonaro obteve 33% dos votos, Haddad outros 32%. Os demais somaram 35%, o que constitui o maior contingente de eleitores aptos a votar, mas que votaram em outro candidato, votaram nulo ou em branco, ou simplesmente não compareceram.

Ainda que se possa presumir que, já no primeiro turno, tanto os eleitores inclinados a mão votar com a esquerda, temendo o fator Lula, elegeram Bolsonaro, quanto outros, inclinados a não votar com direita, elegeram Haddad temendo o fator Bolsonaro, os demais 35% do eleitorado, que ignoraram a pretensa polarização, permitem refutar essa hipótese. Corroboram, ao contrário, que os extremos podem estar radicalizados, sem que a sociedade esteja polarizada – o que é corriqueiro na teoria dos sistemas partidários.

Faça um teste bem simples: passadas as eleições, e de novo com Lula livre, leve e solto, V. se sente compelido, a escolher entre o Lula livre e o Bolsonaro acima de todos? Se não, para Você, e os demais que assim pensam, não há polarização, são os extremos que radicalizam.

Um corolário da falácia da polarização é a falácia do “terço garantido”. É uma tese menos difundida, restrita aos soi-disant analistas, que se dedicam a especular sobre causas e consequências, e sobre intenções e estratégias de atores políticos. Tomar como premissa que os extremos do espectro político já têm garantido um terço do eleitorado equivale a determinar de antemão que 66% dos votos que hipoteticamente já se encontrariam em alguma urna imaginária, iriam respectivamente para Bolsonaro e para Lula ou um de seus avatares. O “terço garantido” é, portanto, a premissa do lugar garantido de ambos no segundo turno.

Com o terço do eleitorado garantido, Bolsonaro não precisaria realizar nada do que se espera de um presidente da República, nem implementar qualquer das mudanças radicais que anunciou, nem mesmo se abster de atuar contra os projetos de lei que ele mesmo encaminhou ao Congresso. Bastaria continuar fazendo gestos simbólicos que agradem a seu terço cativo, que isso lhe garantiria, por antecipação, seu lugar no segundo turno.

No outro lado do espectro, seja o velho Lula raivoso e radical, que perdeu três eleições seguidas, seja o Lula paz e amor de 2002, seja o Lula livre, vítima e herói, algoz das elites e pai dos pobres, só lhe bastaria estar presente para se beneficiar da polarização e galvanizar as massas para conter o bolsonarismo.

Entretanto, se a premissa da polarização for falsa, como estou convencido de que é, e a estratégia de radicalizar os extremos para neutralizar os moderados não pegar, a história será outra.

Voltarei em breve para discutir o derrotismo que deriva da falácia de um Lula imbatível.

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