PARA ENTENDER O LÍDER NEOPOPULISTA

O DISTÚRBIO DE NEOPOPULISMO MALIGNO

Foi-se o tempo em que a História era explicada por meio de grandes eventos e grandes personagens. Datas, guerras, generais e condestáveis. Desde o fim da Grande Guerra (1914-1918), conceitos abstratos, como funções, estruturas, sistemas, passaram a dominar os esquemas explicativos nas disciplinas de Ciências Humanas.

Autores como James N. Rosenau tentaram superar essa visão limitada, introduzindo as características individuais dos governantes, e de seus conselheiros, como uma das dimensões determinantes das decisões de política externa. Mas a prevalência dos fatores estruturais persiste ainda hoje, dificultando o entendimento do papel decisivo dos líderes políticos no neopopulismo.

Minha hipótese é de que não há explicação racional para o comportamento dos líderes neopopulistas. Assim sendo, é necessário encontrar outro tipo de explicação ou outra noção de racionalidade para entender a lógica da conduta política desses líderes.

Daniel Byman e Kenneth M. Pollack publicaram recentemente um artigo no Foreign Affairs, retomando o tema da capacidade de um grande líder para determinar os rumos da História. Os autores criaram uma série de categorias interessantes para classificar tipos de liderança.  São boas metáforas, mas limitadas pelo pressuposto da racionalidade dos indivíduos retratados. Conhecido o perfil de liderança, segundo os autores, seria possível deduzir logicamente ou, pelo menos, entender racionalmente sua conduta.

Ora, se há um problema com relação à conduta dos líderes neopopulistas (doravante usaremos Líder para significar líder neopopulista) é justamente a evidente dificuldade de terceiros para explica-la. Em parte por falta de coerência: Líderes como Donald Trump ou Jair Bolsonaro se desdizem com enorme frequência e afirmam o mesmo e seu contrário.

A diferença entre o líder político “normal” e o Líder é que este atua como se o fato de duas afirmações serem contraditórias não as impedisse de serem ambas verdadeiras. Ele não reconhece o princípio clássico do tércio excluso, segundo o qual, não é possível ser e não ser ao mesmo tempo. Ou, como resume o decano de nossa Ciência Política, Leôncio Martins Rodrigues: “eles não sabem a diferença entre o ser e o não ser”.

Algo similar ocorre com a noção de certo e errado, que estabelece os padrões da moralidade individual. Para o Líder, certo e errado não são padrões contraditórios introjetados pela experiência, pela educação, pelos costumes ou pela Lei, ambos decorrem essencialmente de sua conduta: por definição, o Líder faz sempre o bem, portanto, o bem é o que ele faz. Um Líder, como o presidente Trump, pode abertamente chantagear um governo aliado, ou aliar-se a um governo adversário para facilitar sua reeleição, já que sua reeleição será um bem para o país. E daí?

Um Líder, como o presidente Bolsonaro, pode atuar abertamente para suspender a Constituição, porque a Lei é a encarnação de sua conduta. E daí?

BOLSONARO NÃO VAI PARAR, TERÁ QUE SER PARADO

A maneira como o Líder enfrenta a relação entre causa e efeito também lhe é particular. Sua conduta é análoga ao que ocorre na diferenciação entre certo e errado, bem e mal. Ele só faz o certo, tudo o que é causado por ele é bom, logo o bem é o que ele faz.

Alguém que não ele pode até causar o bem, desde que coincida com o que o Líder faz, mas não causa necessariamente o bem. Pode ser, deixar de ser e voltar a ser o bem, sem que essa impermanência tenha efeito sobre o bem ou o mal que ele causa. Trump, por exemplo, inviabiliza a investigação do seu processo de impeachment, proibindo o depoimento das principais testemunhas, o que é certo, mas acusa a oposição de indicia-lo sem provas, o que é errado.

Quando partidos querem obter vantagens em troca de apoiar Bolsonaro, essa conduta é a causa de toda a corrupção. Quando, em troca, Bolsonaro procura as bancadas parlamentares, que querem o mesmo que o partidos, seu efeito será benigno. Quando ele atua para acabar com a “patifaria” do Congresso, novamente está causando o bem. Quando, no dia seguinte, oferece vantagens para obter apoio dos partidos, essa conduta deixa de causar o mal.

Como vemos, o ato de obter apoio em troca de vantagens para partidos causa corrupção, deixa de causar corrupção quando se trata de bancadas temáticas, volta a ser quando se trata de conclamar para um golpe militar e volta a ser do bem quando o golpe fracassa.

De pouco adianta tentar entender a trajetória política de um Líder-neopopulista com base em motivações, valores, estratégias e planos, pois não podem ser comprovados. Apenas condutas podem ser observadas e, uma vez comprovadas, mostram que as condutas de Bolsonaro não estão sujeitas a contradições, são elas que definem o certo e o errado, e são elas o parâmetro para julgar os efeitos de bem ou de mal causados por essas mesmas condutas.

Se não é possível entender sua conduta, também é inútil apontar suas contradições, pois para ele são inconcebíveis. Tampouco vale mostrar que sua conduta está moralmente errada, o que para ele é impossível, o mesmo valendo para as críticas sobre os efeitos deletérios de seus atos, uma vez que o valor de um ato não está em seus resultados, mas em quem os pratica.

Depois de ter passado incólume pela convocação de uma intervenção militar no dia 19 de abril, Bolsonaro tem-se conduzido como se nada pudesse detê-lo e derruba a canetadas os obstáculos a sua ascensão ao poder absoluto a que julga ter direito. Quem quer que esteja, no Executivo, tentando conter os prejuízos, terá que admitir que o Presidente não vai parar, terá que ser parado.

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