ONDA REVOLUCIONÁRIA OU SIMPLES FALÁCIA?

SETE FALÁCIAS EM BUSCA DE CONSENSO

A opinião pública vem sendo alvo de narrativas de publicistas e ativistas que buscam implantar um consenso falacioso a respeito do futuro do País. Meu objetivo era discutir algumas falácias mais relevantes que tentam reproduzir o contexto de alternativa inevitável que levou às eleições de 2018. As reações da corte bolsonariana aos protestos no Chile soam, porém, como alerta contra os riscos que a democracia representativa pode correr e, portanto, a urgência do exame da falácia da “onda revolucionária” se impõe.

Tal falácia atribui, às inúmeras manifestações populares maciças, que estão ocorrendo em diversos países de diferentes continentes, uma só e única motivação, no caso, a revolta contra a desigualdade. Ora, a hipótese de que um evento de massa desse porte possa ser explicado por uma única causa não resiste a uma rápida análise. O mesmo se aplica a eventos independentes entre si e que ocorrem em contextos sociais, políticos, e culturais diferentes.

O problema político dessa falácia é de servir como pressuposto para propagar outras falácias, entre elas a de que o Brasil será fatalmente a bola da vez. Quem ganha com isso?

Para começar, ela favorece setores do bolsonarismo, que começam a se sentir ilhados por um repúdio crescente da sociedade, e por um suposto surto de esquerda no subcontinente, estimulando o ímpeto presidencial para convocar as forças armadas, e mesmo a endossar ameaças veladas de uma “repetição da história”.

À esquerda do espectro, a previsão de que uma rebelião popular, inspirada em Hong Kong, Barcelona e, principalmente, no Equador e no Chile, vai irromper a curto prazo no Brasil, serve também ao PT e à esquerda radical. Vejo duas hipóteses, a primeira seria como poderoso reforço do discurso do golpe e da resistência. Uma rebelião violenta confirmaria a narrativa da ilegitimidade do regime e daria razão a campanhas pelo impeachment.

A segunda, como incentivo a uma radicalização dos dois extremos, o que poderia provocar uma conflagração tal, que precipitasse a queda do governo. Ora, a probabilidade do colapso do governo, dada sua comprovada incapacidade para governar, e suas iniciativas estapafúrdias, é bem maior do que zero, e pode ser uma questão de tempo.

A única dúvida é saber se o colapso redundaria, ou não, em queda do governo, isto é, um colapso à la Collor e Dilma ou à la Sarney e Temer. Fica a questão: para que lado iriam as preferências da esquerda: um impasse do qual emergiria com um discurso eleitoral poderoso, ou uma conflagração que a levasse, docemente constrangida, a desencadear uma solução na lei ou na marra?

Sei que nada posso esperar dos missionários ativistas, mas seria pedir demais, aos publicistas de boa-fé, que não propagassem a previsão de inevitabilidade de revolta popular sem uma análise mais cuidadosa? Afinal, as diferenças entre as manifestações são gritantes.

França, Chile e Equador têm um passado comum de manifestações violentas, e o movimento partiu de reivindicação concreta que se banhou em um legado de insatisfação generalizada. Na Bolívia, trata-se de fraude eleitoral, além de rejeição ao governo; na Espanha, o separatismo ocorre na província mais desenvolvida e, portanto, mais privilegiada; em Hong Kong defende-se a democracia representativa. No Líbano, como no Brasil em 2013, também se partiu de reivindicação específica, mas sem violência.

Dada essa diversidade de origens e de trajetórias, seria impossível prever se, quando, e como, algo similar poderia ocorrer, por quais motivos e como iria evoluir.

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