O SURTO DO MESSIAS FRUSTRADO

E A “DERROTA” DE PIRRO

Neste comentário pretendo defender a tese de que o atual conflito aberto entre o Executivo, o STF e a Câmara, desencadeou um processo indesejado e imprevisível: atingiu um ponto de não retorno entre a trajetória golpista de uns, e o instinto de legítima defesa das instituições políticas fundamentais.

Minha convicção é de que a acachapante derrota pessoal de Bolsonaro, e sua omissão na tentativa de desautorar o STF e intimidar o Legislativo por interpostos bolsonaristas, impuseram um custo tão alto, que a reincidência arruinará definitivamente a continuidade de seu mandato. Do outro lado, entretanto, a Câmara e o STF, qualquer que seja nosso julgamento moral, saíram vitoriosos. Ambos, o STF sobretudo, mostraram que sua margem de manobra é muito superior à do Presidente da República. Juntos ou separados poderiam tornar sua vida um inferno.

Isto me inspira a reinventar a metáfora da vitória de Pirro – uma vitória que esgota seus recursos de tal maneira que a derrota seria inevitável na próxima batalha. O bolsonarismo desencadeou uma “derrota” de Pirro tão custosa, que outro surto golpista levaria à ruína do mandato presidencial.

Se observarmos bem, veremos que os auto proclamados estrategistas do governo tentaram fazer do seu obstáculo supostamente maior – o chamado “Centrão” – um colaborador. Tentaram comprar os parlamentares por migalhas, o que é, no mínimo, uma ofensa: um parlamentar que se preze não se vende. Pode emprestar seu voto com contrapartida, mas o pede de volta sempre que lhe parecer necessário à manutenção de seu mandato.

Não deu certo, e a nova tática em andamento consiste em entregar o governo nas mãos do Centrão, deixando o presidente livre para cuidar de sua obsessão em salvar o pouco que lhe resta de apoio em uma meia-dúzia de grupos de pressão que, hipoteticamente, irão acompanhá-lo numa aventura, ou garantirão seu acesso ao segundo turno em 2022 – o que vier primeiro.

A derrota acachapante, repito, mostrou que a minoria de veto, que constitui o Centrão, juntou-se à maioria da Câmara para mandar um recado claro: “ao Rei devo tudo, menos a honra”.

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