LÁ E CÁ MAUS VENTOS HÁ

DEPOIS DA PANTRUMPIA HAVERÁ BONANÇA?

A história política recente nos traz lições sobre o mundo que enfrentaremos após esta tragédia, que combina o impacto da pandemia, um cenário internacional imprevisível, e o risco de colapso de nossa economia.

É do conhecimento de todos a corrosão das democracias representativas em todo o mundo. É patente, no Brasil, a desconfiança nas autoridades eleitas, a noção de que os interesses dos representantes passam na frente das necessidades dos representados, que tampouco recebem o equivalente do que contribuem para o bem estar geral. Isto é algo que não passa despercebido, é consenso na maioria da elite política.

Desde as manifestações difusas de insatisfação popular da década passada, só não enxerga quem não quer ou quem não viu a história passar porque, como diria John Lennon, estava “ocupado fazendo outros planos”. Na Europa inteira, as democracias, acossadas por governos populistas, sofrem hoje os efeitos da inesperada recusa de obediência e disciplina para defender-se coletivamente da recidiva da pandemia.

Donald Trump é um exemplo extremo desse assalto à legitimidade da representação popular. Ele combina com destreza a exploração do ressentimento de minorias com o oportunismo das frações mais retrógadas da elite política americana. Afirma-se que Trump seria a pessoa menos preparada e menos adequada para governar a maior potência mundial, mas foi eleito – e agora reeleito com mais de 48% dos votos – precisamente porque reunia um conjunto de vícios profissionais e traços de caráter que lhe permitiram passar por cima do Partido Republicano. Para tanto empenhou-se em manipular o ressentimento, a raiva e o desejo de revanche da parte da população mais afetada pela última crise financeira.

Trump foi eleito porque mobilizou os piores sentimentos de parte da população, e não por seu preparo e adequação para governar. Foi eleito porque foi o candidato mais bem preparado e adequado para manipular essa enorme distância, criada ao longo das últimas décadas, entre a classe política das sociedades democráticas e a insatisfação generalizada entre seus representados que se sentem despojados de condições condignas de vida.

Isso, porém, não compensou a ausência de qualidades para governar. Internamente, esmerou-se em desmontar ou paralisar as instituições governamentais mais vitais, da Inteligência à Justiça, passando pela Política Externa e a Defesa.

No plano externo, comandou uma cruzada tripartite. Primeiro, contra os países aliados, que destratou com ofensas, fez ameaças e pressionou para obter intervenção em assuntos internos de seu interesse pessoal. Nas instituições internacionais, tratou de desmontar ou paralisá-las, como no caso da Organização Mundial do Comércio e da Organização Mundial da Saúde. Quanto aos compromissos assumidos, ou descumpriu ou retirou-se de regimes tão vitais como o acordo de Paris sobre Mudança Climática, o acordo com a Rússia sobre eliminação de mísseis nucleares de curto e longo alcance, e o acordo para impedir a proliferação nuclear com o Irã, cujo único resultado prático foi a retomada do programa nuclear daquele país e o retorno dos radicais ao poder.

Seu desempenho nas relações com seu próprio governo e com amigos, com o Congresso ou com outros países é, com poucas exceções, medíocre, quando não desastroso. De todos os alardeados “deals” – no sentido de “negócio fechado” – em que se disse o melhor negociador do mundo, só conseguiu sucesso em mudar, às pressas, o nome do NAFTA (acordo comercial com o Canadá e o México). O acordo do Século com a Coréia do Norte fracassou, mas deu tempo para Kim Jong-un completar o ciclo dos mísseis transcontinentais.

Seu insucesso vem da incapacidade de admitir concessões mútuas, um jogo em que as concessões de um dos lados podem ser um ganho para ambos, e não necessariamente uma perda para o lado oposto. O melhor exemplo é a “guerra comercial” com a China, símbolo da política de América First,  cujas condições implicariam ganho exclusivo para os EUA. O “deal” em questão mal chegou ao pape mas, na prática, dele não saiu. O que chegou foi, para o consumidor americano, aumento de preço e, para os produtores, aumento  de custos e escassez – devido à dependência da economia americana de insumos chineses mais competitivos.

Frente a seus tradicionais aliados, essa política resultou em desmontar toda uma rede de alinhamento diplomático e militar que manteve, nos últimos 80 anos, as guerras e o terrorismo longe de seu território. Das economias mais ricas aos pequenos países, profundamente interdependentes comercial, financeira e politicamente com os EUA, a maioria encontra-se hoje num dilema entre fugir de suas ameaças e resistir ao fascínio dos arriscados negócios da China.

As ameaças de abandonar a Europa se os países não aumentassem sua contribuição para o orçamento da OTAN, não foram a atendidas, mas fragilizaram a União Europeia diante das pressões centrífugas dos governos populistas. Sua retirada impulsiva do Iraque, do combate ao Estado Islâmico e do Afeganistão, e a traição aos aliados curdos, em nada contribuíram para a estabilidade na região.

O legado de Trump ao próximo mandatário é mais insegurança, mais instabilidade financeira, menos cooperação no combate a calamidades ambientais ou sanitárias, menos cooperação no âmbito científico e tecnológico e, mais grave, mais ódio e ressentimento.

Cedo para falar das consequências aqui para a terrinha. Só sabemos que lá e cá maus ventos há. Prometo estudar mais um pouco e voltar em breve.

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