GRINGOSxMERCOSUL

DUAS OU TRÊS COISAS QUE SEI SOBRE A UNIÃO EUROPEIA E SUA POLÍTICA COMERCIAL

No final dos anos 40, havia um poderoso beque de área – tenho quase certeza que do Fluminense – bom cabeceador, chamado Gringo. Com muito custo descobri que esse não era seu nome, mas era uruguaio, portanto gringo ficou. Afinal, os uruguaios sempre foram considerados uma quinta coluna suíça encravada no nosso Continente. Para ver que a globalização do futebol vem de longe.

Pois bem, para mim, os europeus são tão gringos como podem ser os povos dos países ricos do hemisfério Norte. A diferença dos europeus com relação aos americanos, por exemplo, é que a herança colonialista dos primeiros ainda pesa muito, enquanto o colonialismo americano já se desenvolveu num contexto imperialista moderno.

Em matéria de política comercial, os europeus não diferem dos demais países: caricaturando, querem exportar sem limites e limitar as importações o máximo possível, ou seja, administrar o comércio com rédeas curtas. Mas há duas peculiaridades na atitude europeia: primeiro, a Europa olha para nós como ex-colônias e, segundo, elevou o protecionismo à dimensão de arte – sobretudo em matéria de Política Agrícola Comum.

Vou precisar de algum tempo para digerir todo o blá-blá-blá diplomático do acordo da EU com o Mercosul finalmente “concluído”, mas posso assegurar desde agora, que não há nada definitivo. Os europeus não têm a menor capacidade para competir com o agronegócio brasileiro, não vão abandonar, nem sequer reformar sua Política Agrícola Comum, portanto, não incluirão o agronegócio no livre comércio propriamente dito. Por enquanto, apenas cotas – aliás inferiores a patamares já acordados anteriormente – e justamente sobre nossas exportações mais relevantes.

Tenham em mente que exportar sem tarifa 90% dos itens de exportação não é o mesmo do que exportar 90% do valor do comércio, nem mesmo 90% dos itens efetivamente exportados. É fácil para eles abolir tarifas de itens que não exportamos ou exportamos pouco. Geralmente, menos de dez itens correspondem a mais de 80% de nossas exportações, e esses itens não terão tarifas zeradas.

Macron não me deu chance, e furou meu blog sobre o acordo GringosXMercosul. O governo francês, 24 horas depois do anúncio do fim das negociações, já deixou claro que não está disposto a ratificar o acordo:

https://www.francetvinfo.fr/economie/emploi/metiers/agriculture/la-france-pour-l-instant-pas-prete-a-ratifier-l-accord-ue-mercosur-annonce-le-gouvernement_3517193.html

Traduzindo o essencial: “A França, por enquanto, não está disposta a ratificar”, quod erat demonstrandum.

Voltarei ao assunto para discutir por quê, desta vez, a UE resolveu concluir as negociações – e não se sabe se e quando poderia ser ratificado. Tem a ver com sua necessidade de, pelo menos, alardear alternativas às relações comerciais e políticas com os EUA – adianto desde já.

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