ENTREGUES NAS MÃOS DE DEUS

QUE SIRVA DE ALÍVIO PARA OS CRENTES E DE ALERTA PARA OS AGNÓSTICOS

Os rituais, os oráculos, os sacrifícios propiciatórios, nas sociedades primitivas e na antiguidade, eram os meios de se defender contra as ameaças. Os comandantes romanos cultivavam a estratégia, que combinavam entre si, juntamente com o apelo aos oráculos para mais facilmente enviar a soldadesca para a morte.

Diante da ameaça fatal à sobrevivência deste país como nação livre e independente, em decorrência da disseminação potencialmente pandêmica do novo vírus corona, a elite dirigente se omitiu totalmente. Nem sequer tentou encontrar um mínimo de entendimento sobre um planejamento estratégico. Em vez disso, optou por sentar em cima das mãos, entregando tudo nas mãos de Deus.

Enquanto a China concentrava todos os seus recursos sanitários, econômicos, políticos e de segurança para conter a epidemia em Wuhan, logo isolando toda a Província de Hubei; enquanto a epidemia se disseminava na Coréia, no Japão, e atingia a Lombardia, onde alcançou 424 casos e 12 mortes em 26 de fevereiro; e quando o Brasil já registrava seu primeiro caso de teste positivo para a doença, nosso presidente da República brincava com fogo. Bolsonaro obteve apoio maciço do parlamento, cuja Câmara, em 4 de fevereiro, aprovou no mesmo dia, e o Senado no dia seguinte, projeto que ampliava os poderes presidenciais para adotar medidas excepcionais de defesa contra aquilo que parte da comunidade epidemiológica nacional e internacional já considerava uma pandemia.

Entretanto, em vez de dar sequência, o presidente impôs uma agenda de confrontação com o parlamento em torno de um esquálido butim de pouco mais de uma dúzia de bilhões de reais do orçamento. Seu resultado não só provocou um clima de conflito, mas inviabilizou toda a agenda de reformas consideradas quase unanimemente indispensáveis para retomar o crescimento da economia.

Ora, a ameaça potencialmente letal era conhecida desde meados de janeiro. Na primeira semana de fevereiro, o potencial para uma disseminação global era suficientemente conhecido pela comunidade nacional e internacional de saúde pública, para que o Congresso brasileiro aprovasse de olhos fechados uma lei restritiva de direitos constitucionais de modo a permitir a implementação de uma estratégia de combate sem quartel ao contágio da população brasileira. Após os 41 dias que sucederam sua aprovação, em que o presidente se divertiu zombando da tragédia, e tomando iniciativas que dificultaram seu combate, um Comitê de Crise foi criado por Bolsonaro e se reuniu para emitir meia dúzia de decisões pontuais sem nenhum teor estratégico.

Desde o desdobramento do caso da China, o caráter pandêmico da disseminação estava no radar, como estava no radar a inevitabilidade, mais cedo ou mais tarde, do isolamento territorial e do confinamento residencial das populações. Com todos os instrumentos nas mãos, o governo Bolsonaro não definiu um plano estratégico capaz de preparar a nação para o isolamento. As autoridades de saúde finalmente tomaram decisões aos trancos e barrancos, contra a vontade expressa do presidente, que se desdobrou em ridicularizar a tragédia do seu povo, dos especialistas e dos profissionais expostos a uma doença letal e cruel. O que vemos, mesmo em governos estaduais que tentam enfrentar a pandemia com competência, é a improvisação e um desconsolo patente diante não apenas da omissão, mas da oposição explícita do presidente.

Por mais que os responsáveis pela saúde pública brasileira se desdobrem, não podem intervir, já não digo sem a iniciativa, mas sem sequer a chancela do presidente, e o que é pior, frente a sua oposição.  Não lhes cabe interferir nas prerrogativas presidenciais para gerir transporte, abastecimento, relações trabalhistas, crédito…

Coisas absolutamente vitais, como proteger a vida dos moradores em favelas, preservar empregos, proteger profissionais que atuam em funções essenciais, tudo está sendo improvisado nos Estados, enquanto o Executivo fabrica diariamente legislação confusa e cheia de lacunas, e Bolsonaro se esmera no único repertório que é capaz de dominar: atacar e recuar, afirmar e se desdizer, um passo em frente e muitos atrás.

Sem objetivo, sem plano, sem decisão, sem implementação, estamos nas mãos de Deus.

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