CADA GOVERNO TEM O CENTRÃO QUE MERECE (2)

DUAS OU TRÊS COISAS SOBRE POLÍTICA BRASILEIRA

 (2) Se Você já leu “Cada Governo Tem o Centrão que Merece”, continue rolando o texto e passe direto para a segunda parte sobre as potencialidades e limitações do atual Centrão> “CENTRÃO: QUO VADIS?”

O centrão não é um fenômeno que se repete. O primeiro grupo chamado “centrão”, no governo Sarney, não foi o mesmo criado no segundo mandato da presidente Dilma, sob a forte liderança de Eduardo Cunha. Também não foi o mesmo centrão que ajudou a derrubar Dilma, a salvar Temer do impeachment, e a contribuir para sua dramática instabilidade que o levou ao colapso.

O centrão de hoje é uma herança desse centrão semi-anárquico, agora organizado em torno de um grupo heterogêneo de líderes partidários.

Falar de centrão pode ser útil, na medida em que mais ou menos se sabe de que fenômeno político e de quem se está falando. Se, em vez de defini-lo abstratamente, verificarmos quais dimensões são comuns em suas diferentes incarnações, veremos que vale a pena tentar entender o comportamento político do centrão e sua estratégia. Com isso, poderíamos prever os dilemas que esse movimento parlamentar deverá enfrentar no atual governo.

Primeiro, o que o centrão não é.  Definitivamente não é uma coalizão interpartidária, mas um movimento de parlamentares avulsos. Nem é um movimento de centro, mas sim, composto por políticos pertencentes à direita dos partidos de praticamente todos os matizes e de todos os tamanhos.

Segundo, o centrão tem sido um movimento reativo e defensivo. Nasceu durante a Constituinte, sob a liderança de Roberto Cardoso Alves, do PMDB paulista, organicamente alinhado com o então Presidente Sarney, em torno de uma pauta duplamente reativa e defensiva. Por um lado, a direita estava alijada de qualquer protagonismo na Constituinte, cuja agenda era dominada pela polarização entre os partidos de esquerda e as alas mais à esquerda do PMDB.

Por outro lado, dada a tutela exercida pela alta liderança do PMDB sobre o governo Sarney, tutela que lhe permitiu tentar suprimir  dois dos seis anos de mandato de Sarney, a direita encontrou, na defesa de um mandato negociado de cinco anos para Sarney, o acesso às benesses do Executivo, que até então lhe eram dificultadas. Para tanto, ora se associou ao centro, com a bênção da direita do PMDB, para barrar as pautas mais à esquerda, ora se associou ao PT, para barrar o parlamentarismo, e para apoiar agendas sindicalistas, corporativistas e estatistas.

No início do segundo mandato de Dilma, uma parte significativa do Congresso se sentiu ameaçada por três diferentes razões. Primeiro, devido à insatisfação crescente na classe política com o tratamento errático que era conferido, por Dilma, às demandas pontuais dos parlamentares e com as limitações impostas à compra direta de apoio, devidas ao escândalo do “Petrolão”. A isso somou-se a intervenção do Planalto na eleição do Presidente da Câmara.

A eleição de um emedebista fora um compromisso previamente assumido pelo PT, e a intervenção de Dilma provocou uma revolta do chamado baixo clero, que se uniu em torno de Eduardo Cunha. Sob sua liderança formou-se um movimento de resistência dos setores menos infuentes do Congresso à irrelevância a que se sentiam condenados. Por último, surgiram ruídos verossímeis em torno de um novo grande partido de centro-esquerda, a ser criado para livrar a Presidente de sua dependência do PMDB e da parte do PT que não lhe era fiel.

Durante o governo Temer, o movimento do chamado centrão herdou praticamente a conformação e a natureza reativa do período Dilma. Sua capacidade de mobilização dos parlamentares foi tanta que conseguiu reunir, na Câmara, o quórum suficiente para barrar duas vezes o pedido de impeachment contra o presidente peemedebista. Entretanto, dada a inexistência de uma agenda proativa, não se empenhou em garantir-lhe a aprovação da emenda constitucional da reforma da Previdência, que poderia ter salvo seu mandato do colapso.

E quanto à dimensão de agenda proativa nas diferentes manifestações do centrão, e seu corolário, a capacidade de adotar uma estratégia própria? No governo Sarney, o ativismo do centrão consistiu em reagir, em diferentes casos, a diferentes riscos. Se Sarney tinha alguma estratégia de, além de manter seu mandato, liberar-se da tutela do PMDB, o centrão não evoluiu para uma estratégia própria.

Em vez usar a adesão ao governo como plataforma para obter maioria nas eleições de 1989, pulverizou-se entre um grande número de candidaturas e não conseguiu obter o mesmo protagonismo no governo Collor.

A partir de 2015, além de reagir às ameaças que atribuía ao governo Dilma, o centrão atuou a reboque da agenda proativa do PSDB, que consistia em derrubar o governo Dilma, se possível livrar-se também de Temer, e ascender ao poder. O centrão dispunha de cacife suficiente para, além de ser um dos protagonistas do governo Temer, associar-se à sua agenda de reformas e a um pequeno grupo de possíveis candidatos, para enfrentar as eleições de 2018 com alguma chance de um desempenho relevante. Em vez disso, limitou-se à agenda defensiva de proteger Temer do impeachment e, como na sucessão de Sarney, dispersou suas energias entre candidatos que se inviabilizaram mutuamente.

O centrão é, portanto, um movimento de parlamentares que surge, em diferentes circunstâncias para, como uma minoria de veto, defender-se de ameaças à sua própria sobrevivência política. Em cada caso, riscos diferentes levam a movimentos defensivos diferentes mas, em todos os governos, prevalecem algumas dimensões. São elas a orientação política de direita, e não de centro; o caráter de movimento de parlamentares e não de coalizão interpartidária; sua natureza de minoria de veto, reativa e defensiva, sem uma agenda proativa.

No atual governo, o centrão tem procurado exercer um protagonismo independente da agenda presidencial e até esboçou iniciativas que são próprias de uma estratégia, como a de esboçar, à revelia do Executivo, um programa independente de reformas. Resta saber – e me proponho a voltar ao tema – como atuará diante do dilema entre assumir uma estratégia proativa de poder, ou manter-se como uma coalizão de veto.

LEIA MAIS ABAIXO SOBRE O POTENCIAL E AS LIMITAÇÕES DO ATUAL CENTRÃO

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