DUAS OU TRÊS COISAS SOBRE O DESGOVERNO BOLSONARO

“REVOLUÇÃO” CULTURAL, MORAL E CIVILIZATÓRIA

Em blog anterior, de 14 de maio, “Mandando Moro Para o Chuveiro”, que Você poderá consultar rolando para baixo este texto, ou pesquisando pelo tema ou título, tratei de especular, com base nos fatos tornados públicos, quem mais se beneficiaria do enfraquecimento do atual ministro de Segurança e Justiça. Omiti, entretanto, quem poderia perder, com exceção do próprio Moro.

É o que vamos discutir em seguida, com enfoque no governo Bolsonaro. A hipótese de Elizabeth Balbachevsky, que compartilho e desenvolverei aqui, é de que o pilar racional do Governo é quem mais perde. Os eventuais enganos são, porém, de minha lavra.

Os perdedores seriam pessoas e grupos de diferentes áreas, com diferentes agendas, mas que compartilham interesse pela atividade pública, capacidade para diagnosticar ou, pelo menos, para reunir capacidades com essa competência, que sustentam uma agenda de reforma ou a capacidade de formula-la, e com experiência na implementação de políticas: a equipe de Paulo Guedes, a de Sérgio Moro, os oficiais de nível superior aposentados das Forças Armadas, e um número de tecnocratas dispostos a colaborar com o governo.

Devemos levar em conta que não se deve confundir o loteamento de cargos, típico dos governos eleitos plebiscitariamente, com a coalizão de poder em torno do âmago do Executivo. No caso de loteamento, aquele que envolve algum tipo de barganha pragmática, implícita ou explícita, temos conflitos localizados e restritos, que não repercutem diretamente sobre a estabilidade e a capacidade do governo. Mas mesmo conflitos localizados, como os que ocorrem no Ministério da Educação, podem evoluir para o conflito no âmago do governo, e isso porque refletem diretamente a composição de forças com maior influência e autoridade junto ao chefe do Executivo.

A crise permanente – em minha opinião, insolúvel – do Ministério da Educação, provém, em primeiro lugar, da incompatibilidade dos grupos de pressão contemplados no loteamento interno daquela pasta: o que chamo o serralho, que inclui a família Bolsonaro, o filósofo da corte e sua corte; os religiosos; os tecnocratas; e os militares, ou mais precisamente, os oficiais superiores da reserva das Forças Armadas. Para ser funcional para com a estabilidade e a capacidade governativa do Executivo, o loteamento da Educação deveria ter sido de natureza pragmática, uma coalizão de interesses, cada um em sua área, como ocorreu, por exemplo, com o ministro Mendonça Filho, no governo Temer.

Isso não foi possível, porque a racionalidade decisória compartilhada pelos militares e tecnocratas alojados inicialmente no MEC não é compatível com a fé do grupo de pressão religioso nem com a irracionalidade sofística do filósofo da corte e de sua corte. Sem um mínimo de racionalidade decisória, não se move um ministério em uma democracia, daí a paralisação auto infligida pelos grupos que se julgam os únicos interlocutores legítimos dos ouvidos presidenciais.

O que é mais grave, esses dois grupos comportam-se como se a “guerra ideológica” fosse a razão de ser do governo Bolsonaro, e a condução, pelo MEC, de uma agenda de reforma cultural, moral e civilizatória, constituísse o cerne da batalha estratégica final dessa “guerra ideológica”. Como essa agenda é inegociável, porque consiste em valores absolutos, que constituem o âmago das crenças desses dois grupos – o religioso e o sofístico – o conflito com os adversários só poderia ser resolvido com a destruição total dos infiéis.

Creio que se pode o tomar o MEC como um microcosmo da presidência Bolsonaro, e supor que a guerra sem quartel contra os setores racionais da pasta, reflete a guerra sem quartel movida contra o pilar racional do governo. Similarmente, o enfraquecimento crescente de Sérgio Moro enfraquece todo o esteio racional constituído por ele, Paulo Guedes, os militares e os tecnocratas.

Além do grupo irracional, esse enfraquecimento favorece também o pilar dos oportunistas que, no entanto, por um lado, não têm recursos para garantir o equilíbrio e a estabilidade proporcionados pelo pilar racional e, por outro lado, cedo poderão tornar-se o próximo alvo da ira dos deuses.

LEIA ABAIXO PÉROLAS DO DIA-A-DIA

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