DUAS OU TRÊS COISAS: DE OCDE IN, A THEREZA MAY OUT

CHINA – PARA ALÉM DAS COMMODITIES?

O vice-presidente Mourão foi a Pequim com os pés no chão, e não atrás de negócios da China. Sua visita parece ter feito por merecer, inclusive, a atenção do novo autoproclamado chefe supremo, Xi Jinping[j1] , em um momento em que muitas capitais são cautelosas, dada a proximidade do massacre da Praça da Paz Celestial.

Mourão foi co-presidir a reunião da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível (COSBAN), sobre cuja relevância há controvérsia. Os que defendem sua importância estratégica, enumeram o número de compromissos assumidos em cada reunião, enquanto os que dela duvidam alegam a inexistência de implementação e de follow-up. A principal causa apontada para sua insuficiência é de que, no Brasil, o vice-presidente não tem autoridade para coordenar políticas e cobrar resultados. O que transpira na mídia, além do sovado mantra de que queremos diversificar, aumentar o conteúdo tecnológico e o valor agregado de nossas exportações – o que pode ser atribuído a sua assessoria – Morão advertiu que vai distribuir, entre as repartições responsáveis, a informação sobre os compromissos e cobrar resultados. É ver para crer.

OCDE

A Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico é, no jargão das Relações Internacionais, um regime, isto é, uma associação de livre adesão a um conjunto de normas e políticas públicas, com o compromisso de cada participante de cumpri-las total ou parcialmente. Foi criada como parte do Plano Marshall, com a finalidade de cooperar para o financiamento da recuperação econômica dos países europeus, com a condição de que esses países integrassem suas políticas econômicas. A parte de financiamento terminou com o fim do Plano Marshall, mas a integração ou, mais precisamente, a convergência de políticas econômicas continuou – tendo contribuído para a criação do chamado Mercado Comum Europeu – e se estendeu com a abertura da OCDE para outros países não europeus.

O Brasil já possui relações estreitas com a OCDE, e já aderiu a uma parte significativa de suas centenas de regras. Mas diferentes governos brasileiros tradicionalmente mantiveram a política das uvas verdes, com a alegação de que a adesão à OCDE tiraria do Brasil a margem de manobra para não precisar respeitar nenhuma regra imposta de fora. Para que aderir à melhores práticas se eu posso sobreviver com as piores?

Quando sondado para aderir à OCDE, o chanceler Celso Amorim comentou que só iria cogitar dessa adesão se o convite fosse estendido também à China. Ou seja…

A política do governo mudou e, durante o governo Temer, o processo de certificação foi apressado, mas os governos Obama e Trump impuseram um veto à pretensão brasileira. Tudo indica que o fator para isso foi a imagem de fraqueza do governo Temer.

Não se pode negar que a diplomacia do Bolsonaro, conseguindo reverter esse veto, obteve, neste particular, um feito positivo para a economia brasileira. Resta saber se todo o lento processo que ainda falta percorrer será bem sucedido, o que depende de um governo forte e com grande capacidade de conexão com a classe política – velha e “nova”. Quem viver, verá.

THEREZEXIT

Os equívocos que levaram ao processo do Brexit cobraram sua segunda vítima, levando consigo Thereza May, primeira-ministra conservadora do Reino Unido. Governos longos, e seus partidos de sustentação, são considerados sujeitos a um cansaço dos materiais. Desgaste do poder me parece uma metáfora mais precisa. Os eleitos se recusam a expor-se a medidas impopulares e se revoltam com a arrogância do Executivo, o eleitor se decepciona com a eternização dos mesmos problemas. O Executivo já não se sente comprometido com um eleitor longínquo e promessas há muito esquecidas. Uma coalizão antes vitoriosa presencia uma luta intestina sem trégua.

Tony Blair levou os Trabalhistas a três vitórias consecutivas, mas não levou ao fim seu terceiro mandato, derrotado nas lutas internas, que só aceleraram sua derrota nas eleições seguintes. O conservador David Cameron, seu sucessor, temeroso do desgaste que aguçou a insatisfação popular com a grande crise financeira internacional, tomou iniciativas muito arriscadas de fazer consultas populares a um povo insatisfeito. O referendo da independência da Escócia foi um desastre, e o referendo sobre a EU foi outro, muito pior.

Assim como os trabalhistas substituíram Tony Blair em vez de chamar novas eleições, e os conservadores substituíram Cameron para evitar novas eleições, o partido de Thereza May preferiu sangrá-la até a renúncia para, pela segunda vez na mesma legislatura, impedir o povo de se expressar nas urnas. Deus se apiede do povo britânico.

O CENTRÃO E A ESTABILIDADE DA NAÇÃO

Em breve falarei aqui sobre o Centrão e seu papel no contexto atual. Minha hipótese é de que a estratégia de sobrevivência do Centrão, em sua composição atual, consiste impedir a estabilidade do governo, e para tanto, a política mais racional consistiria em impedir o progresso das reformas, especialmente a reforma da previdência. Se esta estratégia será, ou não, executada a contento, dependerá, entre outras coisas, da rendição ou não do Presidente, cuja alternativa de assumir de fato o governo, parece remota.


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