DILEMA DA PANDEMIA

SE CORRER O BICHO PEGA

Desde os primórdios da pandemia, São Paulo se destacou, em parte, por ser o principal foco de disseminação – decorrente de sua preeminência econômica, política e cultural, que promove extensa interatividade internacional – mas, sobretudo pela atitude proativa dos governos do Estado e da Capital, em estreita cooperação com as autoridades federais e internacionais de saúde. As medidas cautelosas foram inicialmente bem recebidas pela população mas, embora tivessem contido um crescimento mais rápido da disseminação e da letalidade, não foram suficientes para reverter a curva, isto é, fazer com que o número de infectados começasse a diminuir significativamente, em vez de continuar aumentando. E até agora continua.

O Brasil esperou o vírus chegar – e era facilmente previsível que chegaria, e chegaria com força em São Paulo – não só tardou a combater a disseminação, mas também para elaborar um plano estratégico. Apesar da centenária experiência em epidemias, muitas das quais importadas, o que se viu, tanto no plano federal como no plano regional, foi improviso e, em alguns casos, “experimentos” de ensaio e erro. O que cabe observar: uma epidemia dessas proporções pode ser um problema técnico, mas sua solução é estritamente política.

 O caso de Wuhan, na China, é exemplar. O descaso dos dirigentes do PCC, em admitir e combater os primeiros sinais de um novo vírus de rápida disseminação, fez com que o mundo só tomasse conhecimento do potencial pandêmico da nova virose quando ficou tarde para a adoção de medidas preventivas na China. Com isso, os sistemas sanitários no mundo inteiro viram, surpresos, os chineses imporem apressadamente um bloqueio universal em Wuhan e, logo, em toda a província de Hubei.

É verdade que a divisão interna no governo federal sobre a política sanitária, agravada pela atual acefalia do Ministério da Saúde, dificultou enormemente a gestão da crise em São Paulo. Mas isso não impediu que a ação governamental na Capital e no Estado de São Paulo tenha sido, até aqui, vitoriosa. Uma simulação matemática dos efeitos da pandemia na capital por pesquisadores da USP, UNESP e Federal do ABC, reunidos no Observatório Covid-19 BR, sugere que, se nenhuma política de contenção tivesse sido adotada, teríamos um contingente de infectados dez vezes maior do que em 24 deste mês (500 mil casos contra os atuais 45,5 mil) e 50 vezes o número de óbitos (150 mil contra os atuais 3,5 mil). Uma expressiva vitória – até aqui.

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MAS HÁ SEMPRE UM MAS

Mais significativa é a projeção para o resto do ano, caso se comece a flexibilizar as medidas atualmente implementadas sem nenhuma cautela. Neste caso extremo, tudo o que foi atualmente alcançado seria anulado, e a progressão dos casos e dos óbitos alcançaria um patamar semelhante aquele que resultaria de adotar, desde o início, uma política de esperar para ver, isto é: teríamos em dezembro três milhões, em vez de quatro milhões de casos, e 180 mil, em vez de 190 mil óbitos.

Se as medidas de isolamento permanecessem as mesmas, a projeção de casos até dezembro tenderia para zero e a de óbitos, a cerca de 30 mil. Só que ninguém pode aguentar um isolamento de nove meses. E nenhum sistema produtivo suportaria uma economia rodando em baixa rotação por tanto tempo. Admita-se que, entre o isolamento implementado hoje, e o fim total do isolamento, a diferença parece grande.

Será? Creio que uma boa estimativa é de que, hoje, cerca de um terço da população está isolada permanentemente, uns 15% saem de casa em rodízio, isto é, não são os mesmos que saem todos os dias. A outra metade certamente não está passeando por passear, ou para mostrar que não está ligando para nada: está, por necessidade, em alguma ocupação rotineira.

Ora, cada vez que se abrir um setor, o aumento da mobilidade não irá se restringir aos operadores desse setor e sua clientela. Os 15%, que hoje saem eventualmente, deverão aumentar, se é que não vão se sentir livres do isolamento. Restarão os que prezam demais a vida para se arriscar inutilmente, ou são mais vulneráveis. A disseminação pode chegar ao descontrole.

Há poucos dias, a expectativa criada pelas próprias autoridades paulistas era a de serem obrigadas a decretar o bloqueio se o isolamento não voltasse a crescer. Como não cresceu, parece que se optou por deixar o isolamento continuar decrescendo: o governo paulista divulgou em 27/05, a adoção de uma abertura seletiva e cautelosa, talvez julgando inviável o bloqueio total. Ainda assim é surpreendente que a área mais ameaçada de colapso, a Capital, tenha sido declarada pronta para uma abertura controlada.

Admitamos que o bloqueio seja, neste momento, politicamente inviável. Se adotassem medidas mais drásticas de bloqueio, os responsáveis poderiam ser condenados por todas as perdas materiais que provocariam mas, se o provável colapso sanitário ocorrer, serão vilipendiados por todas as perdas de vidas.

Enfim, se correr, o bicho pega, se ficar o bicho come. Eu correria, pois teria alguma chance de não ser comido.

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