CRISE É CRISE, GOLPE É GOLPE

O GOLPE EXISTE, MAS NÃO IRÁ ALÉM DO MUNDO VIRTUAL

O presidente da República não criou apenas mais uma crise, criou a mais grave e a mais arriscada de todas as crises, desde o colapso do regime militar. A mais grave, porque ameaça desencadear um golpe, com o objetivo de abolir a Constituição e as instituições que compõem o cerne da democracia representativa. E também a mais arriscada porque, qualquer que seja o rumo que o presidente tome daqui por diante, já cruzou o Rubicão, e só terá a perder. Para todos os efeitos, já está perdendo.

Se tentar cumprir a ameaça feita em seu nome, ele cairá inevitavelmente. Se recuar e renegar a tentativa de golpe, perderá doravante toda credibilidade que ainda lhe resta, e ficará refém da classe política e desmoralizado diante de seus seguidores. Na verdade, já recuou. Depois de ter editado e publicado um vídeo em que apoia a convocação para o golpe, voltou atrás, alegando que se trata de opinião pessoal compartilhada com amigos.

Diante da gravidade da iniciativa do presidente, de coonestar uma mobilização de massas para depor o regime constitucional vigente, ameaçando a sobrevivência do sistema democrático representativo do País, custa acreditar que a reação da elite dirigente seja tão frouxa. Para uns, o golpe em andamento é “inoportuno”, para outros “não ajuda”, para outros, ainda, não condiz com a “liturgia do cargo”, ou põe à vista o “despreparo” para exercê-lo, e para outros é apenas um episódio o mais na obsessão do presidente por provocar conflitos. Digno de nota é o silêncio ensurdecedor do PT, e a decisão de centrais sindicais, partidos e movimentos de esquerda de irem às ruas falar, como sempre, com o próprio umbigo.

Dada a propensão do presidente para recuar, desdizer-se, ceder à menor pressão, que já o levou a falar em renúncia, ainda resta a possibilidade de um desfecho pouco traumático. Mas diante da falta de disposição da classe política para impor limites – os limites constitucionais – ao presidente e ao bolsonarismo, não se pode descartar a tentativa desesperada de um golpe de força.

Exponho a seguir alguns argumentos por que tal golpe fracassaria:

O “povo”, extensamente fragmentado como em todo episódio populista, espera ser protegido e beneficiado pelo seu líder. Que o líder peça ao povo que o defenda e o proteja, desfere um golpe fatal ao seu suposto carisma: vide no que deu a convocação de Collor ao povo, para que viesse às ruas com as cores do presidente para protegê-lo: nas ruas, o povo se vestiu de preto pedindo sua cabeça.

O Congresso está muito satisfeito em dar as cartas e manter um executivo fraco em permanente dependência do arbítrio dos parlamentares, e não seria irracional ao ponto de aceitar, docemente constrangido, quem se propõe a fechar o Congresso e os partidos. Minha hipótese é de que, se se configurasse uma tentativa de golpe, iria encontrar uma resistência muito mais forte do Congresso, que já mostrou que é capaz de mudar a Constituição em dois tempos.

O “mercado” é uma abstração altamente heterogênea, que vai do taxista ao agronegócio, e inclui as indústrias e serviços que competem com importados e só sobrevivem com subsídios e protecionismo. Os que apostavam na liberalização, estão decepcionados com o pouco que Paulo Guedes entregou do muito que prometeu. Os que esperam mais subsídios já deveriam saber que não há lastro no orçamento: que apoiem o golpe não é impossível, mas é uma aposta aventureira e sem relevância.

Bolsonaro e seu serralho apelaram de forma canhestra às Forças Armadas, abusando da imagem privada de generais e sujeitando-se a desmentidos dentro de seu próprio gabinete. Jango caiu depois que apoiou publicamente a rebelião dos sargentos e a dos fuzileiros e marinheiros, o que uniu a oficialidade e o alto comando, até então divididos entre “getulistas” e “lacerdistas”. Minha hipótese é de que o apoio tácito que vem sendo dado a amotinados de todos os tipos, já está provocando uma reação semelhantes entre os militares. Assim sendo, se as Forças Armadas viessem a intervir seria por convocação das autoridades civis para proteger a Constituição e as instituições democráticas.

Minha hipótese é de que o presidente não participará de um golpe no dia 15 de março, e o ataque às instituições será reduzido, sponte sua, a ataques a pessoas e à defesa do seu mandato. Quanto ao Congresso, a quem caberia obrigar o chefe de Estado a respeitar os limites constitucionais, o mais provável é que reaja com a leniência de sempre, e o recompense com uma “anistia” preventiva. Isto equivaleria a incentiva-lo a repetir a ofensa, o que seria inevitável, mas, desta vez, indo até as últimas consequências.

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