COLAPSO À VISTA?

DUAS OU TRÊS COISAS QUE APONTAM PARA O COLAPSO DE UM GOVERNO

Já discuti, em dois textos anteriores, “De volta ao presidencialismo plebiscitário” e “O aventureirismo não compensa”, a instabilidade intrínseca do modelo presidencialista, agravada pela combinação entre eleição direta do Presidente e eleição proporcional do Legislativo. Mostrei, entre outras coisas, a frequência com que os governos brasileiros entraram em colapso ou não resistiram ao golpe de Estado, a partir de 1926.

A probabilidade de colapso tem sido demasiado alta desde o advento da Nova República, em 1985. Com efeito, estamos no oitavo exercício presidencial e já três entraram em colapso antes de completarem o mandato (37,5%). Entre as variáveis que prenunciaram o colapso, as mais importantes são, primeiro, o total abandono pela base de apoio governamental. Segundo, a formação de uma maioria de veto suficiente para desencadear um processo de impeachment e leva-lo até a derrubada do governo. Terceiro, o isolamento crescente do chefe do Executivo, que passa a cerca-se de seguidores fiéis, não apenas em eventos públicos, como por meio da contínua substituição de auxiliares do governo por pessoas com laços antigos de amizade. Além disso, passa a falar exclusivamente com seu público cativo, tornando-se cada vez mais opaco às manifestações de opiniões diversas ou discordantes.

O colapso final tem sido associado a um lapso grave, que poderia ter sido contornado caso o Presidente contasse com apoio suficiente para vetar o processo de impeachment, mas que se torna fatal devido à perda da base de apoio, ao isolamento físico e intelectual, ao cerco dos que o defendem por interesse próprio e fidelidade pessoal, e não por fidelidade à estabilidade institucional do governo e do país.

Collor fez esse percurso em pouco mais de dois anos, depois de várias tentativas da classe política de lhe dar a chance de emendar-se, da quais saiu sempre mais isolado do que entrou. Dilma começou essa trajetória em 2013 e atingiu o ápice do abandono de sua base de apoio e de encastelamento em três anos. Temer perdeu sua capacidade de governar menos de um ano após assumir interinamente a Presidência, devido ao episódio da gravação de Joesley Batista (maio de 2016). A base de apoio de Dilma, que a derrubou, vetou as duas tentativas de impeachment contra ele, mas não viabilizaram sua agenda de reformas.

O governo Sarney não sofreu colapso similar ao de Collor Dilma e Temer, nem sofreu impeachment, mas o Centrão, que o manteve no governo, contribuiu para que perdesse totalmente o apoio popular, cuja insatisfação com a classe política e com a economia foi de tal ordem que levou à eleição de Collor, que caiu rapidamente. Se incluirmos Sarney entre os governos que fracassaram, chegamos a quatro, isto é, 50%.

O atual governo, em menos de sete meses de mandato, vem pontuando em quase todos os indicadores de alerta de colapso e nada indica que perceba o risco que está correndo, nem que aceite emendar-se. O quinto fator apontado, a ocorrência de um lapso grave, tem-se manifestado com uma frequência alarmante mas, por enquanto, o temor de um efeito calamitoso na economia tem mantido a classe política desusadamente cautelosa. Até quando?      

596 comentários sobre “COLAPSO À VISTA?

  1. Luiz Guilherme F. Guilhon disse:

    Enquanto estiver agradando ao empresariado mesmo prejudicando a população mais carente conseguirá se manter no poder. Quem elege um governante é a maioria (manipulada ou não) mas quem determina o seu impeachment geralmente são via de regra uma minoria com poder econômico que passou a se sentir ameaçada em seus objetivos.

    • Jose Augusto Guilhon disse:

      Observo que a direita não fundamentalista já está abandonando o Mito, vide o panelaço, e parte do empresariado que compete internacionalmente – como o agronegócio mais moderno está vendo seus negócios em risco. Volto ao tema no blog desta noite.
      Muito obrigado por seu comentário.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *