AS VÍTIMAS COLATERAIS DA COVID-19

A GUERRA CONTRA OS SUBNOTIFICÁVEIS

Estamos sim, em guerra, mas contra quem? Não é contra o vírus, pois não existem armas  eficientes, não se sabe se, como, ou quando teremos essas armas, e o contágio não para. Nem contra sua disseminação, pois quanto menos se consegue contê-la, mais se estimula a aglomeração.

Parece que estamos em guerra, pois estamos sob ataque de legiões de invasores homicidas, que não combatemos, porque não dispomos de armas (remédios e vacinas), não impedimos sua invasão e, uma vez invadidos, damos salvo conduto aos invasores. Ou seja, parece que estamos em guerra, mas não se sabe contra quem.

 A metáfora da guerra é totalmente equivocada,  mais ainda a de economia de guerra. Nas guerras de verdade, a superioridade bélica depende de uma frente interna unida e de uma linha de frente totalmente mobilizada, preparada física e mentalmente, bem equipada e bem armada. Todos os braços e cabeças disponíveis são mobilizados nas frentes interna e externa. Todo o setor produtivo é mobilizado para atender às necessidades domésticas essenciais e/ou convertido para atender às demandas próprias de uma guerra.

Dentre as dimensões da guerra, temos apenas a legião de invasores determinados a nos matar ou nos incapacitar, embora nem sempre bem-sucedidos. Creio que podemos conceituar com mais precisão a presente pandemia, não como guerra, mas como um movimento defensivo global, com particularidades domésticas e internacionais.

No âmbito doméstico, que trataremos aqui, a frente interna não está unida, pode-se até dizer que está sendo dividida deliberadamente, por uma quinta coluna minoritária, que aplaude a disseminação da invasão viral, para ela contribui e para tal se beneficia da liderança do chefe do Executivo.

Desmobilizada, a frente interna está sendo demitida, suspensa sem vencimentos, teve seus rendimentos cortados, foi proibida de trabalhar, ou sua renda do trabalho precário foi fortemente afetada. Os que estão na linha de frente não foram preparados física ou mentalmente, nem sempre estão equipados, nem dispõem de insumos e equipamentos médicos para atender às vítimas da invasão. O setor produtivo, em vez de ser incentivado a reconverter-se para atender às necessidades que emergiram da invasão viral, é estimulado a se endividar para não ter que inovar.

Como na pandemia de gripe “espanhola”, na falta de armas apropriadas para combater o vírus diretamente, as regiões que imediatamente combateram por todos os meios sua disseminação, com quarentena de bloqueio total, têm tido sucesso em reduzir drasticamente a disseminação e começaram mais cedo a recuperação econômica. Ainda não se sabe até quando, mas estima-se que, nesses casos, será possível reverter uma segunda onda por meio de medidas menos drásticas. Mas não é o caso da maioria dos países, nem de longe é o caso do Brasil.

No nosso caso – e refiro-me ao de autoridades que tinham por objetivo defender-se dos efeitos da pandemia, e não ignorá-la e disseminá-la ainda mais rapidamente – os objetivos flutuaram à medida que foram falhando e sendo substituídos por outros mais frouxos. Tomou-se como objetivo evitar o colapso do sistema e não a disseminação do vírus. Em decorrência dessa opção, nunca se cogitou adotar uma política de testes em grande escala com confinamento compulsório e rastreamento dos contatos dos que testaram positivo.

E disso resultou que o sistema só não entrou em colapso porque a demanda foi reprimida. E a demanda reprimida tornou-se subnotificação, seja pelas medidas iniciais de retardar ao máximo o atendimento, até que os sintomas se revelassem muito graves, seja pela falta de recursos para diagnosticar, ou pelo medo de contaminar-se ao procurar atendimento.

À  medida que foi-se tornando conhecido o aumento inexplicável de mortes sem diagnóstico, com diagnósticos da falência pulmonar, e mais tarde renal, cardíaca, etc., e de mortes em domicílio, também se tornou consensual a existência de um nexo causal entre esse aumento e uma subnotificação de óbitos devidos à Covid-19. Ora, qualquer que tenha sido a causa dessa subnotificação, tais óbitos ocorreram com pessoas que não foram atendidas no sistema de saúde, ou não tiveram o diagnóstico nem, consequentemente, o tratamento adequado. Dados de julho de 2020, do  Ministério da Saúde, e diversas estimativas nacionais e internacionais, apontam para algo entre 1 milhão e 1,6 milhões de casos, com cerca de 100 mil óbitos suspeitos de Covid-19 subnotificada.

Esses cerca de 100 mil óbitos subnotificados são pessoas a quem faltaram os recursos – culturais, sociais e, principalmente financeiros – para serem cadastrados e atendidos no sistema de saúde. Em qualquer país do mundo, mesmo com as dimensões territoriais e demográficas do Brasil, 100 mil mortes sem tratamento adequado decorrem de um indiscutível colapso do sistema de saúde. Decorrem da opção por não combater, com todos os recursos necessários, a disseminação da doença, e optar por manter o sistema de saúde com folga suficiente para tratar os casos notificados.

O colapso realmente existente do sistema de saúde – que podemos estimar pela soma dos casos notificados e subnotificados – evita que as pessoas venham morrer na  porta dos hospitais: elas morrem em casa, em consequência da opção por continuar relaxando as limitações do distanciamento social apesar da disseminação não ceder e, às vezes, continuar subindo.

As vítimas colaterais dessa política, em grande parte alimentada por ambições eleitorais, são aquelas pessoas a quem faltaram condições para serem adequadamente diagnosticadas e tratadas. São as vítimas não reconhecidas da falsa guerra contra a pandemia.

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