APERFEIÇOANDO AS TEMPESTADES

DEMOLINDO MAIS UM DOS PILARES

Há pouco comentei sobre a pletora de tempestades imperfeitas que ameaçam o governo brasileiro, tendo definido tempestades imperfeitas como “colisões conflituosas entre os principais esteios da sobrevivência do governo em uma democracia representativa”. São imperfeitas porque, até o momento, nenhuma delas é condição suficiente para provocar o colapso atual do governo. Não obstante, “longe de complementar-se mutuamente na função de oferecer, ao governo democrático, a governabilidade estável de que depende sua sustentação, [a interação entre a presidência e esses esteios] concorre, ao contrário, para seu colapso”.

No comentário passado sobre “Várias Tempestades”, tentei mostrar como o chefe do Executivo não se mostra capacitado para exercer a liderança inerente ao cargo em suas relações com as instituições, os representantes de interesses, e o eleitorado em geral. A conduta política de Bolsonaro na semana que passou aprofunda a relação conflituosa do presidente com o âmago de sua própria identidade política e aproxima essa tempestade da perfeição.

O presidente se conduz como se não pudesse suportar a existência de interlocutores. Tudo o que faz para enfrentar uma insatisfação, em vez de tentar entender a natureza do problema e os meios para enfrenta-lo, é escolher um culpado e ataca-lo por todos os meios. Afasta, demite, substitui, escorraça.

Como não entende por que deveria convencer seus correligionários, age para destruir o partido inteiro, ignorando que a probabilidade de encontrar abrigo em outro partido essencialmente diferente do PSL é próxima de zero. Siglas não faltarão – embora talvez falte a grana pública tirada dos fundos partidários – mas serão o que a folclore da política nacional trata como “siglas de aluguel”.

Alguns dirão – talvez com razão – que é disso mesmo que nosso supremo magistrado precisa, mas parece não ter encontrado no PSL: um grupo de fiéis fanatizados e políticos venais, facilmente manipuláveis por meio de uma liderança “mítica”, e que possam ser afastados, demitidos e descartados a seu bel prazer. Respondo que a probabilidade de Bolsonaro não repetir o seu modus operandi – imaginar um incômodo, escolher um culpado e atacar a torto e a direito, é ínfima.

O único resultado possível é aumentar seu isolamento político: um passo a mais no aperfeiçoamento das tempestades.

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