AOS AMIGOS, TUDO

AOS INIMIGOS, DESPREZO

O quase ex-ministro da Educação tentou embelezar sua própria identidade com total inabilidade para esse tipo de esperteza. Além de sua queda ser um desastre a mais na trajetória do nosso ensino, abismo abaixo, e de ficar ainda mais remota a expectativa de alguma correção de rumo, algo me incomoda muito.

Incomoda a certeza de que ele não é um de nós e, por isso, não foi tratado pelas redações que influenciam a opinião pública, com a benevolência devida à elite pensante. Se fosse branco, de esquerda, como o também ministro da Educação Aloísio Mercadante, membro reconhecido da intelectualidade paulista (justa ou injustamente), e ministro de um governo forte com uma oposição inoperante, não passaria por essa zombaria quando descobriram que o título de doutor em seu currículo era uma fraude. 

Ninguém zombou da esperteza de Mercadante, nem exerceu qualquer pressão política sobre sua permanência na pasta da Educação. Ninguém também zombou da esperteza da presidente Dilma, que se atribuiu indevidamente o título de economista, de mestre e de doutora, o que configuraria, no mínimo, falsidade ideológica e falta de decoro.

A queda de Decotelli está sendo atribuída a um documento da Fundação Getúlio Vargas negando a esse seu professor colaborador a condição de professor efetivo. Ora, como a maioria dos meus colegas contemporâneos, passei a quase totalidade de minha carreira acadêmica no Brasil, de auxiliar de ensino a professor adjunto, como professor contratado, e só fui efetivado depois do concurso para professor titular, o ápice da carreira.

Por que a FGV emitiu esse documento, e por que informou o que Decotelli não era, e não que tipo de ensino ele prestava, se é que prestava? Se ele não tinha competência para ensinar o que quer que fosse na FGV, por que teria ensinado?

No caso de Aloísio Mercadante e de Dilma Rousseff, a Unicamp assumiu uma atitude protetora e se limitou a confirmar que ambos chegaram a cursar seus programas de pós-graduação, omitindo as razões por que não concluíram, nem por que Dilma foi “promovida” a doutoranda sem ter concluído o mestrado.

[Para quem não tem familiaridade com as normas da Capes para a pós-graduação, convém explicar que esse procedimento é permitido, embora geralmente não dê certo. Pela simples razão de que alguém que não é capaz de concluir o mestrado também dificilmente concluirá um doutorado que se preze. Mas a regras da Capes tendem a penalizar os programas que são suficientemente exigentes para reprovar pós-graduandos. Por isso as reprovações acabam sedo raras.]

Pois bem, Decotelli é de direita, e quem não é nesse governo?  E por que um governo de direita não deveria nomear um ministro de direita? Poderia até não ser competente para o cargo – o que nunca se saberá – mas será a competência a marca registrada deste governo, a não ser no que diz respeito ao aumento dos privilégios de castas escolhidas e à criação de novas?

O extremismo cultivado nos últimos anos, não apenas levou à polarização forçada, que resultou em um governo de minoria e radicalizado, deixou marcas profundas. Uma delas é a tendência a não se reconhecer a humanidade que persiste na natureza dos inimigos e adversários.

Por mais acerbas as críticas políticas que Decotelli poderia vir a merecer, não justificariam crucificá-lo em praça pública. Não se trata, para mim, de uma opinião moral mas de uma posição política.

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