A RETÓRICA DESPÓTICA DE BOLSONARO TEM MÉTODO

O PODER DAS PALAVRAS É PARTE DA REALIDADE POLÍTICA

Li, há poucos dias, um artigo de Andre Perry sobre o suposto caráter diversionista das tiradas racistas de Trump contra deputadas democratas, que vocês encontrarão no link: https://www.brookings.edu/blog/the-avenue/2019/07/19/racism-is-not-a-distraction-its-policy/. Nesse artigo, Perry argumenta contra os que se prendem ao aspecto retórico das atitudes de Trump, tratando-as como formas de desviar a atenção sobre as dificuldades e derrotas do presidente americano:

Racism should never be diminished as a distraction—history shows well that the strategic deployment of bigotry is a default practice used to undercut democracy. Inserting nativist, xenophobic language has been the reliable prelude to codifying bigotry into law.

Confesso que tive dúvidas sobre o argumento porque, se a retórica racista é um prelúdio à adoção de legislação e implementação de atos racistas, regionalistas, xenofóbicos ou segregacionistas, o prelúdio retórico continua sendo distinto da legalização do ato discriminatório ou de expressão de ódio. Tive dúvidas, mas me deu o que pensar.

Enquanto nos distraímos com a retórica e duvidamos que os segregacionistas chegarão ao ponto de passar ao ato, as autoridades comprometidas com a discriminação poderão continuar avançando. E o problema moral e político que enfrentamos não deveria se limitar a desqualificar o argumento mas, sobretudo, conceber como barrar sua passagem ao ato.

Assim sendo, prefiro tratar a questão da retórica despótica dos homens fortes da nova direita, pela ótica que adoto em minhas pesquisas de análise de discurso, isto é, entender a retórica como fato observável, e não como intenção a ser interpretada. Ou seja, a fala racista é um fato moral e político, a ser observado como tal e, portanto, tem efeitos políticos e legais, não se limitando a um simples desvio de caráter ou expressão de convicção.

Diferentemente de Perry, portanto, eu diria que a retórica discriminatória pode ser diversionista mas, por isso mesmo, será parte integrante de uma política discriminatória, um passo a mais na direção de um poder despótico. Não é por outra razão que escrevi recentemente (14/07) sobre o tempo perdido discutindo a racionalidade legal, moral ou estratégica do anúncio da nomeação do futuro embaixador brasileiro em Washington. Naquele blog bastante compacto, não havia espaço para discutir o que fazer em vez de.

Nas suas diversas declarações sobre o assunto, o presidente da República repetiu o mantra: “Eu jamais faria isso”, sempre associado a algo considerado ilegal, imoral ou politicamente danoso para o país. Ou seja, tudo o que ele faz, ou quer fazer, é intrinsecamente legítimo já que é ele que faz ou quer fazer, e ele não faz nada errado.

Não é nepotismo nomear o próprio filho porque é Bolsonaro quem nomeia, e não porque não haja impedimento moral ou legal nem seja danoso ao País. Não é favoritismo nomear o próprio filho embaixador, sem as devidas qualificações, porque ele pode nomear o filho chanceler se quiser e, assim, seu filho mandaria em “mais de uma centena de embaixadores”. Chamar nordestinos de “paraíba” pode ser uma expressão de preconceito se considerada racionalmente, mas dito por Bolsonaro é o que Bolsonaro quer que seja, no caso, expressão de “amor” pelo Nordeste.

A repetição reiterada da expressão “Eu jamais faria isso”, sendo “isso” algo considerado ilegal, imoral ou danoso para o país, tem pelo menos dois efeitos na arena política. Primeiro, serve de alerta de que fatos considerados ilegais, imorais ou danosos para o país, tornam-se legais, moralmente aceitos e benéficos para o bem do País quando cometidos por Bolsonaro. E segundo, em decorrência do primeiro, essa declaração pública erige quem quer que se oponha aos seus desejos com base na racionalidade legal, moral ou do interesse nacional, em alvo da cruzada de seus fiéis seguidores.

Trata-se de uma forma clara de negar o direito de opinião de quem duvida que os desejos do presidente se tornem lei ipso facto. É uma forma clara de negar direito a proteção legal a quem protesta contra ações ilegais, imorais ou vistas como danosas ao país e à sociedade. É um convite a seus fiéis cruzados para assediarem moralmente quem se opõe ou simplesmente duvida.

Não é racional esperar que cometer algo ilegal, imoral ou danoso para o país seja legítimo, só porque corresponde aos desejos de uma pessoa, seja ela quem for. É irracional, mas tem método, e esse método consiste em negar a legitimidade de qualquer obstáculo aos desejos do Presidente, mesmo que sejam obstáculos na forma da lei, dos costumes ou da convicção política.

A manifesta irracionalidade da retórica de Bolsonaro não reflete necessariamente ignorância, confusão, impulsividade, desconfiança ou ressentimento. Trata-se de um método para entronizar um poder despótico.

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