A INDIPLOMACIA DO BASQUETE

TRUMP: TRAIÇÕES PARA TODOS OS LADOS

A China é reconhecidamente enigmática para não chineses, mas encontrar um artigo sobre a Associação Americana de Basquetebol (NBA) na seção de Diplomacia e Defesa da Edição Internacional do South China Morning Post (11/10/19)[1] é, no mínimo, surpreendente. O fato é que a República Popular da China criou uma mini crise diplomática, alegando que sua soberania teria sido violada (faz lembrar algum outro país?) pelo gerente geral do time de basquete Houston Rockets em meio a uma tournée de negócios da NBA em Xangai esta semana.

O assunto é sério – não se trata de curiosidade. O suposto violador havia postado um W’App em favor da liberdade e em apoio a Hong Kong – imediatamente apagado quando percebeu a indignada reação maciça, tanto oficial quanto cívica, dos chineses. Os negócios da NBA foram por água abaixo por enquanto, e seu chefe lamentou, mas declarou que a entidade respeitava inteiramente a liberdade de expressão de seus funcionários e atletas[2].

O imbróglio que, numa democracia normal seria tratado no caderno de esportes, chegou à Casa Branca e ao Departamento de Estado, em meio às discussões, em pleno andamento, sobre a suspensão da “guerra comercial”. Trump seguiu seu modus operandi consagrado: atacou as vítimas e se solidarizou com os perpetrantes. Endereçou um punhado de insultos aos dirigentes do NBA, elogiou a atuação de XI Jinping e aproveitou o ensejo para atacar os póprios manifestantes apoiados pelo Houston Rockets e a direção da NBA (“Hong Kong não ajuda”).

Mike Pompeo, o chefe da diplomacia americana, foi mais ambíguo. Solidarizou-se com os empresários do esporte, mas aproveitou para insinuar que o empresariado americano está pagando o preço que aceitou pagar ao investir em um país não favorável ao capital estrangeiro. Assim sendo, não deveríamos surpreender-nos se a nossa dupla de leva-e-traz da diplomacia bilateral com os EUA voltasse um dia Washington, com uma palavra de ordem para aderirmos aos boicotes disfarçados à economia chinesa, da mesma forma como assessores diretos de Trump incentivaram o Brasil a facilitar uma pretensa invasão americana à Venezuela. Diante da visita presidencial de Bolsonaro à China em novembro, e tendo em vista a imprevisibilidade do Planalto, a probabilidade de um desastroso conflito diplomático não é irrelevante.

O fato é que a ribombante declaração sobre um primeiro passo para pôr fim à “guerra comercial” com a China faz parte do repertório trumpiano de anunciar caviar para servir mortadela. Afinal, se alguns aumentos tarifários anunciados foram cancelados, os previstos para o final de novembro continuam em pauta. Numa semana em que Trump deliberadamente jogou seus aliados curdos aos leões, e não cancelou o veto americano à entrada do Brasil na OCDE, adotado desde o governo Obama, manter essa política de protetorado americano pode ser fatal.


[1] https://www.scmp.com/news/china/diplomacy/article/3032418/nba-row-heightens-foreign-companies-fears-they-could-cross

[2] https://www.scmp.com/news/china/society/article/3032068/nba-commissioner-adam-silver-we-will-protect-our-employees

#Brasil/EUA #Política Externa

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